publicado por Miradouro de Vila Cova | Segunda-feira, 21 Julho , 2014, 18:49

O sol submergia.

Ah! És tu? Mas que surpresa!

E foi, então, que disseste:

-Mas que feliz reencontro!

E brincaste com as palavras:

-Feliz reencontro de acaso e num ocaso!

 

Cursámos Direito, jovem que eras na casa dos vinte, eu uma quinzena mais velho.

Eras linda, cobiçada por desejos e paixões, mas persistias no recato da solidão. Quantas vezes não dizias, citando um poeta:

A solidão é como a chuva. Ergue-se do mar ao encontro das noites;

 

Gostavas da noite. Partilhei algumas contigo. Quedavas-te até aos começos das madrugadas, ou entre quatro paredes, onde te enfronhavas no estudo, ou no deleite de leituras e música, ou procuravas lugares ermos, abertos ao teu respirar.

 

Gostei de te rever: -Anda, vem, vamos reviver uma das nossas noites.

 

Acedeste, feliz, percebi-o. E que noite passámos! Que magia, que entrega ao nossos pulsares, a antigos nossos delírios…

 

Dissemos poesia, ouvimos Chet Baker, Miles Davies, o nosso Zeca Afonso e até a “Noite Transfigurada” do Schoenberg. Chegámos mesmo a coreografá-la. E tu ensaiavas gestos e movimentos, com a tua graça natural e alguns dos saberes que colheste, quando mais nova foste aluna de bailado.

 

Fluímos no transcendente, inebriados, hipnotizados por auras enfeitiçadas.

 

E declamaste Rilke:

 

Tenho tal medo da palavra dos homens.

Eles exprimem tudo com tanta clareza:

e isto chama-se cão e aquilo casa,

e aqui é o começo e acolá é o fim.

 

Bailavam-te os gestos com as palavras e prosseguias:

 

E também me amedronta o seu sentido e o seu jogo com o escárnio,

Eles sabem tudo o que vai ser e já foi;

Não há monte que lhes seja maravilha;

O quintal e a quinta deles vão às fronteiras de Deus.

 

Ias tentando endurecer a expressão, mas um certo trejeito no olhar, demasiado terno, traía-te…

 

Hei-de advertir e opor-me: Ficai de largo!

Gosto tanto de ouvir cantar as coisas.

Mal lhes tocais, ficam hirtas e mudas.

Matais-me todas as coisas.

 

Em delírio dos sentimentos, julgámo-nos outros, diferentes, seres outros. 

 

Até que veio o clarão da matina e logo o clamor da cidade.

 

Na subitaneidade, alertaram-se-nos as coisas da vida. Retomámos os nossos quotidianos…

 

Ah, sim! Tu foste aos saldos – roupas lindas e baratas – prenunciavas, e eu, submerso na tentação, fui a uma sofisticada loja e comprei um telemóvel, um sofisticado telemóvel, com muitas e complexas funções, maioritariamente desnecessárias e fúteis.

 

Nuno Espinal


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