publicado por Miradouro de Vila Cova | Domingo, 26 Janeiro , 2020, 19:50

 

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Na foto a “Ti” Júlia, agarrada à sua renda, enquanto o marido o “Ti” Abílio surge do lado esquerdo. Vivos, nesta fotografia, só os então estudantes e que passavam férias em Vila Cova: eu, de cócoras, o Jorge Gonçalves, de óculos escuros, ao seu lado a Artemisa Trindade, neta da Sra. Dª Lúcia e ao seu lado o meu irmão Quim Espinal. Ao lado do Sr. Abílio a sua nora Adelaide, falecida há uns dez anos. O miúdo da foto é o Ramiro, irmão dos Martinhos e falecido prematuramente. Na foto ainda a Diamantina, filha do Ti Abílio e da Ti Júlia, falecida ainda nova.

 

 

As noites amenizavam aquelas tardes de canícula e eram chamativas, para aquele grupo de vizinhos, a momentos a céu descoberto, na procura do reconforto da fresquidão e da cavaqueira que os acasos e os propósitos proporcionavam.

Era assim, mal junho rompia, depois julho por inteiro, até meio de agosto, ou ainda, por vezes, mas já raro, em um ou outro dia de setembro.

Eram anos da minha meninice e já lá vão bem mais de sessenta.

Sentados na tábua incrustada na parede fronteira da velha casa de xisto da Ti Júlia e do Ti Abílio, e num ou outro mocho para a circunstância ali colocados, lá estavam, a acrescer aos anfitriões, o meu avô Quinzinho e a minha avó Olímpia, o Ti Manel Antunes e a Ti Conceição, o Ti Zé Fidalgo e a Ti Eugénia, a Prima Isaíra (era por prima que eu a tratava) e a Dª Lúcia (professora).

Todos septuagenários ou até nos oitenta, gente de valores, de princípios, de lealdades.

Conversavam de correntezas, de coisas do dia a dia, do que vinha na “Comarca”, no “Amigo do Povo”, do que um ou outro tinha ouvido no noticiário da Emissora.

Mas eram as diatribes ou as bonanças da natureza as principais referências a dominar, invariavelmente, estes avisados tagarelares.

Naquele agosto dos anos cinquenta falava-se da chuva que teimava em não cair, da lua cheia que prenunciava, por tão limpa, a continuidade da seca, ou, de uma trovoada que podia surgir para dar cabo do pouco que ainda se aproveitava…

 

“A chuva há de chegar”, alvitrava a Ti Júlia. “Deus ditará quando…”

 

E ponto final, parágrafo. Perante a evocação divina o assunto, por aquela noite, desvanecia-se ali.

 

Ah, a Ti Júlia! Que pessoa admirável! Amiga, tão sociável!

 

Quis o acaso que, um dia, em final de tarde, já nos meados da minha juventude, estivesse na companhia da ti Júlia, na varanda da sua casa. Fazia “renda”, íamos conversando. Desenhou-se, entretanto, um pôr de sol magnífico. Tons avermelhados na barra, chilreios da passarada, uma toada serena e doce.

Ia o sol já no final do seu aguarelado mergulho, nas profundezas do horizonte, para lá do Barril, quando a Ti Júlia parou de rendar, contemplativa e absorta do espetáculo…

Ah, amigos, confesso-vos! Foi então que se me proporcionou um momento sublime, que está emoldurado no meu museu de memórias.

A Ti Júlia pegou-me a mão e diz-me: “Oh menino, tão lindo! Só que seja por isto, não é mesmo uma pena a gente morrer?”

 

 

Nuno Espinal 

 


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