publicado por Miradouro de Vila Cova | Sexta-feira, 26 Março , 2010, 10:06

Norte de Angola, anos 70, 71, companhia 2890,  de comandos e serviços.

Era corpulento o básico Asdrúbal. Mas, de miolos um vazio. Abrutalhado, desengonçado, atrasado, era modelo chapado á gozação.

-Oh Asdrúbal, queres vir às gajas? Anda daí, bora lá à sanzala…

E a resposta do Asdrúbal era sempre a mesma.

-Não vou, tenho namorada na metrópole, até já tenho casamento marcado para quando lá chegar…

A soldadesca rebolava-se a rir. Claro, essa da namorada ninguém a engolia.

-Vai-te lixar oh Asdrúbal. Tens é medo delas…

-Eu medo delas? Experimenta é pôr a tua gaja, nua, à minha frente.

Vinha nova barrigada de riso. E a história repetia-se vezes sem conta.

Até que um dia o Asdrúbal , já farto de tanto gozo…

 

Tinha sido distribuído o correio que, uma vez por semana, nos chegava por avião. Silêncio total, nesses momentos, na leitura de aerogramas e cartas. Só que o Asdrúbal, dessa vez, interrompeu abruptamente o silêncio, com uma surpreendente entrada em cena. Mãos na cabeça, era ouvi-lo, em choro comovente:

-Ai que estou desgraçado, ai que estou desgraçado, ai que estou desgraçado…

Todos presos ao Asdrúbal, todos suspensos no Asdrúbal.

-Oh Asdrúbal o que é que foi, conta lá o que se passa…

-Ai que estou desgraçado, ai que estou desgraçado…Soube agora da metrópole que a minha namorada está grávida de mim…

Meus amigos, a risota louca que se seguiu, a dimensão da chacota, são de todo indescritíveis. Até o mais sério, dos mais sisudos deste mundo, não teria resistido.

 

É que havia catorze meses que decorria a comissão e o nosso bom do Asdrúbal nunca daquele espaço, cercado de arame farpado, tinha despregado pés.   

 

Nuno Espinal 

 


publicado por Miradouro de Vila Cova | Quinta-feira, 25 Março , 2010, 00:59

Voltemos ao Asdrúbal. Corpo hercúleo, força de touro, mas um cabeça de burro de todo o tamanho.

Um dia lá integrou uma equipa de futebol. Chocar com ele era o mesmo que chocar com um penedo. A bola, a certa altura, lá lhe chegou a um dos pés. Nem perdeu tempo. Chuta para onde estava virado, aquilo saiu que nem um canhão. Golo! Louco de alegria corre o campo de um lado ao outro, braços no ar.

Nós, atónitos, nem queríamos acreditar.

É que o Asdrúbal acabava de marcar golo na própria baliza.

 

Nuno Espinal

 


publicado por Miradouro de Vila Cova | Quarta-feira, 24 Março , 2010, 08:30

Há dias uma jovem vilacovense pediu-me que lhe respondesse a algumas perguntas sobre a minha experiência na guerra colonial (anos 70 e 71), para um trabalho seu na escola.

Concluída a entrevista, fiquei entregue a muitas das recordações de acontecimentos que nesse período vivi.

Houve-os menos felizes, alguns bem tristes, contingências típicas de cenário de guerra, mas enfoquei a memória a episódios gratificantes, alguns bem “folgazões”.

Permitam-me que partilhe convosco uma breve e engraçada historieta, a do Asdrúbal.

O Asdrúbal era um soldado básico, que nada devia à inteligência. Servia na messe de graduados, onde lavava pratos e copos e servia umas cervejas e uísques.  

Ora, a messe à noite, naquele aquartelamento no sopé da serra de kanda, no norte de Angola, era espaço de jogos de cartas e conversas acaloradas, estas muitas vezes de política. Eu mais alguns formávamos o grupo dos “esquerdelhos” e fervilhávamos ideias e convicções sobre a luta na América Latina, Che Guevera, Fidel de Castro e a revolução em Cuba.

O bom do Asdrúbal um dia, farto de tanto ouvir, não se conteve e comentou: Os “mês” alferes e furriéis que me desculpem. Mas é que os senhores cometem aí um erro. Eu sou alentejano, de Cuba e garanto-vos que em Cuba, minha terra, não há nenhum Fidel de Castro. Isso posso-vos eu jurar pelo que de mais sagrado há!

Foi a risada geral e o gozo instalado. O Asdrúbal é que não gostou nada da chacota e ofendido conseguiu chegar à fala com o comandante e não se coibiu de dizer: “Mê” comandante, na messe não me têm respeito. Passam a vida a falar de Cuba, que é a minha terra e de um tal Fidel de Castro que lá mora e eu garanto ao meu comandante que lá não há Fidel de Castro nenhum".

O Comandante é que não gostou nada da história. Reaccionário e salazarento ficou em brasa sobre o ambiente esquerdizante da messe. O quê, conversas subversivas em pleno palco de guerra?

Chamou-nos a todos, “parangonou-nos” com pátria para aqui, pátria para ali e proibiu-nos de proferir uma palavra que fosse sobre ideias de esquerda, fossem quais fossem e que atentassem contra a integridade do nosso “Portugal uno e indivisível”.

Claro, que continuámos a ter as nossas conversas. Mas com todos os cuidados. O Asdrúbal, na galhofa, passou, para nós a ser “bufo da pide”. É que, mal se aproximava, mutismo total. Ele, mesmo na sua ignorância, isso percebeu. Inchava todo. Afinal, o respeitinho é muito bonito!   

 

Nuno Espinal

 

 


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