publicado por Miradouro de Vila Cova | Quarta-feira, 02 Dezembro , 2020, 23:28

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Trabalhadores Agrícolas

Nas décadas 50 e 60, Vila Cova, que patenteava uma feição rural, estava contida a um ensimesmamento e era auto servida em muitos dos seus requisitos, ainda que precários relativamente ao mínimo desejável, para a subsistência da sua população.

Este ensimesmamento apenas era ressalvado por escassas idas a Arganil, daqueles que tinham assuntos burocráticos a tratar, ou das idas a feiras, principalmente à de Avô, em razão da proximidade daquela vila, deslocação esta feita a pé.

A grande maioria da população trabalhava na agricultura, muitas vezes a soldo de outrem, em especial nos períodos das vindimas, da apanha da azeitona e da plantação e apanha das batatas.

Eram os trabalhadores agrícolas que despendiam a quase totalidade da energia física fornecida pelo coletivo, através da força motriz que geravam, criadora da produção e atividade económica da aldeia.   

Constituíam, com outros de profissões de baixos recursos financeiros, o escalão inferior da sociedade vilacovense, uma classe que enquadrava um paradoxo no Portugal daquela época: “os que mais trabalham são os que comem menos”.

De facto, assim era. Um salário diminuto, quando trabalho havia, muitas vezes pago em géneros, muito aquém de satisfazer, em termos aceitáveis, as necessidades mínimas, conducentes a uma vida minimamente digna do trabalhador agrícola.

A alimentação era muito deficiente e carecia, não só pela sua escassez, de ingredientes mínimos que a adequassem ao esforço brutal exigido àquela classe de trabalhadores.

Uma sardinha, por vezes até metade, batatas cozidas, regadas por azeite, azeitonas, broa e sopa, a que chamavam caldo, cozinhado com couves numa panela de ferro e eis que estava definido o menu de quase todos os dias.

Em dias de festa o rancho era bem melhorado, com o consumo de carne (porco, galinha, coelho ou até cabrito) com o repasto a incluir, tanto ao jantar (almoço no atual léxico) como à ceia (jantar no atual léxico) uma sobremesa invariavelmente composta de arroz doce e (ou) tigelada.

As refeições pobres do quotidiano levavam os músicos da Flor do Alva a desforrar-se quando das deslocações da Banda a outras terras, onde se realizavam festas inscritas nos seus calendários. Os músicos eram convidados a almoçar nas várias casas das terras e beneficiavam de ementa melhorada.

Esta situação acabava por se tornar um incentivo à integração como filarmónico, na Flor do Alva.  

A vida era dura, com trabalho de sol a sol, avisado o seu termo com o toque das avé marias, harmoniosamente soadas, nos sinos da Matriz, pelo manejar experiente do sacristão.

Numa abordagem ao vestuário, era normal o homem, no seu dia a dia, usar roupa coçada, esburacada aqui e ali, com remendos e abordando o calçado, no verão, muitos andavam descalços em terrenos térreos, usando, em dias de gelo ou chuva, os seus velhos tamancos.

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As crianças

As crianças frequentavam a escola a partir dos seis anos.

Escola que desde a década de 40 contava com uma excelente professora, que preparava os alunos para excelentes resultados escolares.

A escola era desprovida de instalações sanitárias, improvisadas, contudo, num declive térreo no lado direito do edifício, onde os alunos do sexo masculino faziam as suas necessidades fisiológicas.

As meninas tinham de se aguentar tanto quanto possível e, em casos extremos, tinham que recorrer ao tal terreno de improvisação sanitária, com as colegas a fechá-la num reduto, sem que olhos malandros a pudessem observar.

Antes dos seis anos, logo que adquiriam condições para tal, as crianças acediam à rua, com parca vestimenta, muitas vezes quase nuas e quase sempre descalças, onde brincavam com jogos a que faremos referência no próximo capítulo.

Logo que terminava a escola, a criança, precocemente, começava a trabalhar, em trabalho nada adequado às suas fragilidades físicas e mentais, e a suportar, tal como os adultos, às inclemências de intempéries.

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A Mulher

A mulher seguia um destino similar ao do homem, sujeita a trabalhos duros e violentos e, na sociedade machista em vigor àquela época, cabia-lhe a fatia das lides domésticas.

Dada a sua fatal condição fisiológica, a procriação e a amamentação, que lhe eram exclusivamente inerentes, não invalidavam de continuar as suas obrigações domésticas e, num período muito curto, a aceder às suas contribuições no domínio da agricultura.

Uma imagem típica das mulheres era a que as retratavam com cestos à cabeça, a levarem o jantar aos seus homens, ocupados em lides agrícolas fora da população e o transporte de cântaros, apoiados em rodilhas assentes na cabeça, pejados de água, que as obrigavam a equilíbrios virtuosos, típicos de habilidades próprias de circo.

 

Nuno Espinal


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