publicado por Miradouro de Vila Cova | Sexta-feira, 09 Julho , 2021, 00:28

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Acordei! Pela matina, um destes dias, em início do verão.

As pálpebras, depois de um sono profundo, pareciam coladas e a custo a rasgar resquícios do escuro da noite, como cortinas fechadas que teimam em não querer o extremo da vidraça.

Coimbra? Vila Cova?

Com as pálpebras já meio abertas e a perceção quase em pleno, descortinei uma janela.

Ah, sim, a janela do meu quarto. Do meu quarto em Vila Cova.

A madrugada clareava, ainda que o sol continuasse escondido na sua imensa toca da noite.

Entrego-me à madornice por algum tempo.

Depois, já desperto, subo degraus e eis-me frente à varanda.

De caminho olho uma pilha de livros, entre eles, poemas de Alberto Caeiro.

E da memória sai-me este verso:

Da minha aldeia vejo quanto da terra se pode ver do Universo…

E digo:

Da minha varanda vejo quanto da terra se pode ver do Universo…

A minha varanda é um mundo.

Em frente o casario branco, paredes com reboco, cal e tinta a capearem as entranhas em xisto.

Depois, campos verdes e as árvores a traçarem lá ao fundo a linha do horizonte.

E imagino outros horizontes, e mais campo, árvores, aleias, cidades, grandes cidades, países.

Olho para o horizonte e vejo a abóboda, vejo o céu.

O sol a lua, planetas, estrelas, constelações, a via láctea…

E imagino galáxias, vários triliões, dizem cientistas, cada uma delas com centenas de bilhões de astros.

Que dimensão esmagadora, a deste Universo, sempre em expansão, que está mesmo para além da nossa imaginação.

E, nós, humanos, qual a nossa dimensão neste inefável Universo?

Aparentemente quase nula a nossa presença, em cenário em que nos assemelha a um pontinho, em triliões.

Pensar no tamanho do Universo é reflectir sobre a nossa insignificância.

Entretanto, neste emaranhado de ideias surge, em calçada vinda do chafariz de S. Sebastião em direcção ao Calvário, uma senhora idosa, com uma braçada de flores, com as cores realçadas pelo sol que já raiava.

Grande esforço a empurrar o corpo, pernas a passo demorado e mais demorado na subida da calçada.

Viu-me na varanda, saudámo-nos.

E disse-lhe: lindas as flores.

E disse-me: Gostaria de lhe dar uma. Se puder chegar cá abaixo…

Não me deu uma, deu-me várias flores, hortênsias e rosas.

Fiquei embevecido com o gesto. A Senhora da Flores!

Pessoa simples, senhora que se escondia de protagonismos e de muitas das coisas da vida, vim a sabê-lo, e de uma extrema bondade.

A Senhora da Flores!

Naquele momento o Universo perdeu toda a grande dimensão que lhe atribuí. Tornei-o frio e vazio.

Cheio, sim, o planeta Terra. De gentes, gentes com alma, espírito, com consciência, que se amam mas também que odeiam.

Com Virtudes, mas também com pecados.

Como a Senhora das Flores, como todos Nós.

 

Nuno Espinal


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