publicado por Miradouro de Vila Cova | Domingo, 26 Janeiro , 2020, 19:50

 

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Na foto a “Ti” Júlia, agarrada à sua renda, enquanto o marido o “Ti” Abílio surge do lado esquerdo. Vivos, nesta fotografia, só os então estudantes e que passavam férias em Vila Cova: eu, de cócoras, o Jorge Gonçalves, de óculos escuros, ao seu lado a Artemisa Trindade, neta da Sra. Dª Lúcia e ao seu lado o meu irmão Quim Espinal. Ao lado do Sr. Abílio a sua nora Adelaide, falecida há uns dez anos. O miúdo da foto é o Ramiro, irmão dos Martinhos e falecido prematuramente. Na foto ainda a Diamantina, filha do Ti Abílio e da Ti Júlia, falecida ainda nova.

 

 

As noites amenizavam aquelas tardes de canícula e eram chamativas, para aquele grupo de vizinhos, a momentos a céu descoberto, na procura do reconforto da fresquidão e da cavaqueira que os acasos e os propósitos proporcionavam.

Era assim, mal junho rompia, depois julho por inteiro, até meio de agosto, ou ainda, por vezes, mas já raro, em um ou outro dia de setembro.

Eram anos da minha meninice e já lá vão bem mais de sessenta.

Sentados na tábua incrustada na parede fronteira da velha casa de xisto da Ti Júlia e do Ti Abílio, e num ou outro mocho para a circunstância ali colocados, lá estavam, a acrescer aos anfitriões, o meu avô Quinzinho e a minha avó Olímpia, o Ti Manel Antunes e a Ti Conceição, o Ti Zé Fidalgo e a Ti Eugénia, a Prima Isaíra (era por prima que eu a tratava) e a Dª Lúcia (professora).

Todos septuagenários ou até nos oitenta, gente de valores, de princípios, de lealdades.

Conversavam de correntezas, de coisas do dia a dia, do que vinha na “Comarca”, no “Amigo do Povo”, do que um ou outro tinha ouvido no noticiário da Emissora.

Mas eram as diatribes ou as bonanças da natureza as principais referências a dominar, invariavelmente, estes avisados tagarelares.

Naquele agosto dos anos cinquenta falava-se da chuva que teimava em não cair, da lua cheia que prenunciava, por tão limpa, a continuidade da seca, ou, de uma trovoada que podia surgir para dar cabo do pouco que ainda se aproveitava…

 

“A chuva há de chegar”, alvitrava a Ti Júlia. “Deus ditará quando…”

 

E ponto final, parágrafo. Perante a evocação divina o assunto, por aquela noite, desvanecia-se ali.

 

Ah, a Ti Júlia! Que pessoa admirável! Amiga, tão sociável!

 

Quis o acaso que, um dia, em final de tarde, já nos meados da minha juventude, estivesse na companhia da ti Júlia, na varanda da sua casa. Fazia “renda”, íamos conversando. Desenhou-se, entretanto, um pôr de sol magnífico. Tons avermelhados na barra, chilreios da passarada, uma toada serena e doce.

Ia o sol já no final do seu aguarelado mergulho, nas profundezas do horizonte, para lá do Barril, quando a Ti Júlia parou de rendar, contemplativa e absorta do espetáculo…

Ah, amigos, confesso-vos! Foi então que se me proporcionou um momento sublime, que está emoldurado no meu museu de memórias.

A Ti Júlia pegou-me a mão e diz-me: “Oh menino, tão lindo! Só que seja por isto, não é mesmo uma pena a gente morrer?”

 

 

Nuno Espinal 

 


publicado por Miradouro de Vila Cova | Sábado, 25 Janeiro , 2020, 23:11

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Formados em 2014 e apenas com dois atores (Fernanda Santana e Silvino Lopes), OS Gorgulhos/Teatro Na Serra estrearam-se a 16 de Abril desse ano, com a peça “Em Busca dos Ovos da Páscoa”, propositadamente criada para as Bibliotecas do concelho. Ainda em 2014, no dia 17 de Maio, apresentam “Ax’isto muito estranho”, produção que os acompanhou até 2015 e que contou, pela primeira vez com o Diogo Ribeiro como técnico de som e luz. 

A 23 de Maio de 2015, Os Gorgulhos estreiam “Bonifácio o Sultão” e, a convite da Filarmónica Barrilense, passam a utilizar o palco dessa Associação, para realização de ensaios e apresentação dos seus espetáculos. É nesta peça que aparece um terceiro ator (Tiago Raimundo) que os acompanhou até à última representação do Sultão. 

Em 2016, o grupo participa na Feira Medieval de Côja e convida o Rancho Infantil e Juvenil de Côja a integrar o seu novo espetáculo, estreando, a 22 de maio, “Mosca & Bigodes em…o mistério do papa-formigas”. Apresenta, em novembro desse mesmo ano, “A História do Teatro… em Revista”, espetáculo único que trouxe ao elenco dois novos atores (Sofia Gouveia e Acácio Simões). Em 2016, criam ainda a animação “Ceguinhos Fadistas” e participam no evento “Teatro e Moda”, produção conjunta com o Rancho Infantil e Juvenil de Côja. 

No ano de 2017, “Capitão Fragata”, a nova produção do grupo, tem a sua estreia a 20 de maio e uma nova atriz (Vera Filipa) dá o seu contributo aos Gorgulhos. É também neste ano que o Duarte Martinho se junta à equipa técnica permitindo que, a 29 de Agosto, o grupo estreie “Encontro Anual de Escritores Muito (pouco) Lidos” e apresente, a 9 de Dezembro, a sua primeira peça de natal, “Barafunda no Polo-Norte”.

Em 2018, Os Gorgulhos saem da AFB e mudam-se para a Casa do Povo de Vila Cova de Alva com nova produção. “Se calhar não é chá”, tem a sua estreia a 15 de Junho, durante a realização do “I Encontro de Teatro Amador da UF de Vila Cova de Alva e Anceriz”, evento criado e organizado pelos próprios Gorgulhos. “A casa Assombrada” surge a 3 de novembro e, a 6 de dezembro, estreiam “A Reforma do Pai Natal”, acrescentando ao elenco a participação de alguns habitantes das localidades que constituem a UF VCAA. Neste ano apresentam também a animação “Talentos da Horta”. 

2019 representou um ano de grande azáfama para o grupo. Transportando do ano anterior as suas peças “A Casa Assombrada” (até Março) e “Se calhar não é chá” (até Agosto), os Gorgulhos criam várias animações (“Calvário de Cristo”, “Onde está esse coelho?”, “O Rebanho” e “Night Ghosts”) e participam em espetáculos para os quais foram convidados (“O Enredo” e “Café (sem) Concerto”), estreando ainda, a 1 de Dezembro, a sua nova peça de natal, “Mistério na noite de natal”. Também em 2019, o grupo organiza o “II Encontro de Teatro Amador da UF VCAA” e “Jornadas de Música Sacra de VCAA”. 

No início deste novo ano de 2020, Os Gorgulhos/Teatro Na Serra preparam a sua nova produção, com estreia prevista para muito breve e, da qual, não revelam, para já, quaisquer pormenores. Tem ainda em agenda a apresentação de uma nova animação e nova peça de natal, bem como a organização do “III Encontro de Teatro Amador da UF VCAA” e participação em diversos eventos. 

A caminho do seu sexto aniversário, OS Gorgulhos/Teatro Na Serra agradecem a todos, quantos, desde o primeiro dia, pessoas individuais e entidades, tem ajudado e colaborado com o grupo e incentivado à continuação da sua atividade e existência. 

Por fim, Os Gorgulhos agradecem aos mais de 18 mil espectadores que, durante estes poucos anos, lhes deram as suas mais divertidas gargalhadas e os seus mais calorosos aplausos. Bem-hajam.

OS Gorgulhos/Teatro Na Serra


publicado por Miradouro de Vila Cova | Quinta-feira, 23 Janeiro , 2020, 00:46

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Acasos e Coincidências

 

Numa das minhas idas diárias ao Miradouro, sempre na expectativa de novas e histórias, dei comigo a revisitar os acontecimentos de um Capítulo da Confraria do Bucho. E, claro, uma olhadela às fotografias (a uma ou a outra mais demoradamente) que ilustraram essa jornada, onde alguns amigos, das mágicas férias grandes em Vila Cova, estavam presentes.

Missão cumprida e, não havendo nada de novo, vou direto ao meu correio eletrónico. Logo me chama a atenção a correspondência de um amigo de longa data cujo título, “canções do nosso tempo”, me despertou de imediato os sentidos. Aberto o ”mail”, eis que me surge uma música da Françoise Hardy, “tous les garçons et les filles…”, que me transporta novamente ao Miradouro e às fotografias do tal Capítulo.

É que, numa dessas fotos, está a protagonista de uma das minhas mais intensas paixões de adolescente e da qual faz parte a canção já referida.

 

“tous les garçons et les filles de mon âge

 se promènent dans la rue deux par deux.

                                                               ………………………………………………………………..

Et les yeux dans les yeux

Et la main dans la main…etc., etc.”

 

Canção que trauteávamos de mãos entrelaçadas, olhos nos olhos, em juras e promessas de amor incontidos, numa intensa vivência que as paixões dos nossos verdes anos da década de sessenta provocavam.

Gravei o nome da minha amada em muitas das árvores que orlavam os locais míticos que nos serviam de porto de abrigo. Na Mata do Convento, no Rio, nas Tílias, nas Mimosas sobranceiras à fonte dos passarinhos, etc., etc… Algumas dessas árvores já não existem. Outras, pelo passar dos anos, já absorveram essas inscrições. Ainda há um local onde o seu nome continua gravado. Mas esse, não o revelo.

E não me envergonho de dizer que essa eleita do meu coração, foi uma das poucas mulheres por quem chorei, no silêncio do meu quarto, após a sua partida. Inevitavelmente, o fim das férias levava quase sempre a afastamentos prolongados, na pior das hipóteses, até às férias grandes seguintes.

Neste caso, por força de circunstâncias próprias da vida, o afastamento durou alguns anos, bastantes. Reencontrámo-nos, já avós, orgulhosos cada um das suas proles, o ano passado, no almoço de alguma da rapaziada daquela época.

Reencontro memorável, não só pela marcada recordação da nossa juventude, que vivemos generosa e intensamente, mas também porque, pela condição dos anitos que passaram, lhe soubemos imprimir uma ternura muito própria.

São histórias da vida que podiam acontecer em muitas e variadas aldeias. Mas esta foi em Vila Cova do Alva.

Acabo, em jeito de homenagem a todos os queridos amigos e amigas desses tempos, com alguns versos da canção da Françoise Hardy…

 

Tous les garçons et les filles de mon age

Savent bien ce que c’est d’être heureux…

 

Um abraço do vosso

Quim Espiñal

 


publicado por Miradouro de Vila Cova | Quarta-feira, 22 Janeiro , 2020, 21:17

A casa da Sra. Áurea tinha outra janela que deitava para a rua Direita, de onde ela se debruçava a ver quem passava para a missa aos domingos!

Depois, no dia seguinte, fazia os seus comentários no forno com as outras senhoras, alguns bem apimentados e calorosos que, com o calor do forno e um copito a mais, deixava escapar! Um dia alguém levava vestida uma saia em godés, estava vento e ...a senhora mostrou o que não queria e a Sra. Áurea dizia: Olha aquela «badalhoca» ia sem cuecas para a missinha! Seguramente ninguém acreditou.

Naquele tempo a tudo se achava graça, tudo era genuíno e puro, como as tais maçãs de Santiago assadas no forno da Sra. Áurea!

 

Ercília Ribeiro de Ameida


publicado por Miradouro de Vila Cova | Quarta-feira, 22 Janeiro , 2020, 02:47

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O Forno da Ti Áurea

 

Há algum tempo vi, no “Miradouro”, uma fotografia do forno que existia em Vila Cova.
Retratava o forno “comunal” da Senhora Áurea – modesta casinha de uma porta e uma janela. No primeiro piso, o forno, no segundo piso, a casa de habitação.
Conservo na retina a sua simpática figura, ao postigo da casa, de alvo rosto e sorriso doce e aberto.
Eram dias felizes aqueles em que o forno cozia. Felizes, sim, porque o pão era a sustância – havia que o saber governar para toda a semana.
Foi o pão que nos ensinou a arte da agricultura. Segundo a Bíblia, quando Abraão regressou a Canaã, o sacerdote-rei de Jerusalém veio ao seu encontro e ofereceu-lhe pão e vinho, em sinal de hospitalidade.
Desde aí o pão passou a ser a coisa mais oferecida do mundo.
Apontei na minha memória os dias em que o forno de Vila Cova funcionava. Bem cedo, de madrugada, lá andava a forneira de rua em rua, de beco em beco, a alertar as mulheres de que eram horas de começar a amassar o pão em grandes gamelas onde ficava a levedar até à hora de ir para o forno.
Nessa noite não se dormia. Eu também não, levada pela minha curiosidade de tudo observar 
e também porque eram dias de guloseima. Eram corridas e corridas para o forno da “ti” Áurea.
Ainda hoje sinto o cheiro e o gosto da broa acabada de cozer em forno de lenha e também o de umas maçãzitas pequenas, assadas em tabuleiros de folha, sem açúcares nem vinhos. Um verdadeiro manjar dos deuses! Ainda quentes, eram devoradas com avidez. Foi o melhor laxante que conheci até hoje.
Eu gostaria de voltar à minha meninice só para saborear essa broa morna com um punhado de azeitonas, as sopas de café e as tais maçãzitas assadas.
É que não me conformo ter de comer o pão de plástico congelado que me impingem todos os dias.

Nazaré
Pereira

 


publicado por Miradouro de Vila Cova | Domingo, 19 Janeiro , 2020, 21:32

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Tomaram ontem, sábado, posse, os elementos da lista eleita para os Órgãos Sociais da Sociedade Filarmónica Flor do Alva, cujos mandatos se circunscrevem ao biénio 2020/2021.

A posse foi conferida pelo Presidente da Mesa da Assembleia Geral dos Órgãos Sociais anteriores, Nuno Espinal,  e que transita para novo mandato.

Ele próprio sublinhou, numa intervenção após as várias tomadas de posse serem concretizadas, o ato de coragem dos recém eleitos, em especial dos membros da Direção eleita, já que têm de se confrontar com a situação presente do número diminuto de músicos e da reduzida escassez dos seus recrutamentos, face à situação demográfica da região.

A Presidente da Direção, Margarida Fernandes, prometeu muito trabalho e dedicação e sobretudo total seriedade no exercício de gestão dos membros do Executivo.

A Direção ainda ontem reuniu para analisar os vários contratos em proposta para atuações da Flor do Alva.  

 

 


publicado por Miradouro de Vila Cova | Quinta-feira, 16 Janeiro , 2020, 23:44

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Participamos o falecimento, em Coimbra, da Sra. Dra.  Maria Teresa Pinto Mendes de 88 anos de idade, viúva do Sr. Dr. José Joaquim Barbosa, já falecido.

A Dra. Maria Teresa Pinto Mendes foi bibliotecária, durante muitos anos, na Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra e escreveu um importante documento sobre a História de Vila Cova de Alva, que pode ser consultado na página inicial do nosso “site”.

Reconhecia-se-lhe uma enorme paixão por Vila Cova, onde tinha uma moradia no Largo do Adro, em terreno lateral à Igreja Matriz.

Natural de Coimbra, o seu corpo encontra-se em velório, desde hoje, na Capela Mortuária da Igreja de S. José, desta cidade, onde será celebrada Missa, amanhã, sexta feira, pelas 10 h e 30 m.

O funeral realizar-se-á, após a celebração da Missa, para o Crematório Municipal de Coimbra, localizado em Taveiro.

Apresentamos à Família as nossas sentidas condolências.




publicado por Miradouro de Vila Cova | Quarta-feira, 15 Janeiro , 2020, 10:49

Recebemos do Executivo da União de Freguesias de Vila Cova de Alva e Anceriz  a informação de que estão abertas até às 00H00 do próximo dia 20 de janeiro de 2020 as candidaturas para os apoios aos prejuízos agrícolas causados pelas depressões ELSA e FABIEN.

Os referidos prejuízos poderão ser comunicados na Câmara Municipal, Junta de Freguesia ou através da página disponibilizada pela DRAPCENTRO na Internet, devendo os candidatos sempre que possível apresentar fotografias dos referidos prejuízos.

O Miradouro transcreve, abaixo, o ofício enviado à União de Freguesias, a este propósito, pela Direção Regional da Agricultura e Pescas do Centro:

 

Exmº(a)s Sr(a)s,

 

Na sequência da passagem das depressões Elsa e Fabien pela região centro, que provocou danos em explorações agrícolas, a Direção Regional de Agricultura e Pescas do Centro encontra-se a efetuar o levantamento dos prejuízos de âmbito agrícola.

No entanto, para efetuar o levantamento de prejuízos no mais curto espaço de tempo possível, disponibilizou-se na página de internet da DRAPCentro uma plataforma para a submissão online da identificação desses prejuízos, no seguinte link: http://www.drapc.gov.pt/base/especial/elsa/pavii_pp.php

O formulário poderá ser preenchido e submetido on-line, até às 24h00 do dia 20 de janeiro de 2020, pelos agricultores lesados, associações e cooperativas do setor, serviços municipais e serviços das juntas de freguesia, que se disponibilizem para o efeito, devendo anexar ou entregar registo fotográfico digital dos prejuízos, cópia da apólice de seguros, quando aplicável, documentos de parcelário (iE e P3) e quantificar os estragos.

 A identificação dos prejuízos, não confere qualquer apoio aos agricultores lesados, uma vez que se trata de um procedimento exigível para a operacionalização das respetivas medidas de apoio a disponibilizar pelo Ministério de Agricultura, que irão consistir “na atribuição de apoios a fundo perdido no âmbito do Programa de Desenvolvimento Rural PDR2020, que atingem os 100% para prejuízos até 5.000 euros; 85% para prejuízos entre os 5.001 e os 50.000 euros; 50% para prejuízos entre 50.001 e 800.000 euros; caso seja cima de 800.000€, o apoio é atribuído até ao limite desse apoio”. Esta medida abrangerá os “ativos tangíveis e os ativos biológicos que integram o capital produtivo da exploração: animais, plantações plurianuais, máquinas, equipamentos, armazéns e outras construções rurais de apoio à atividade agrícola, incluindo plantas de viveiro, infraestruturas de rega e estufas. Existindo ainda áreas submersas, poderá vir a justificar-se a abertura de uma 2ª fase de candidaturas”.  

No âmbito da operação 6.2.2, do PDR2020, as despesas serão elegíveis a partir da data da ocorrência dos prejuízos e os pagamentos poderão ter lugar após a contratação dos projetos junto do IFAP, contra apresentação da fatura.

Agradecemos a divulgação desta informação através da afixação nos locais habituais e nos canais de comunicação que possuem ao v/ dispor.

 Com os melhores cumprimentos.

 

Direção Regional da Agricultura e Pescas do Centro

 

 

 


publicado por Miradouro de Vila Cova | Terça-feira, 14 Janeiro , 2020, 16:51

Terá sido pouco explícito, mas o II texto dos "contos e recontos" publicado no "Miradouro", que tem merecido muitos elogios, é da autoria de Henrique Gabriel.

Henrique Gabriel, para além de ser um artista plástico de grande notoriedade, tem, na escrita, dotes que revelam e confirmam a sua enorme alma e sensibilidade artística.

Peço desculpa aos leitores por não ter relevado adequadamente a autoria deste pequeno conto, que expressa eloquentemente aspetos do quotidiano daqueles tempos de uma Vila Cova muito marcada pela ruralidade.

Soberbo este recorte literário no final do texto:

"E a quase todos cabia tal sorte, lá iam saindo à frente delas, desaparecendo nas ruas iluminadas por lâmpadas de 20 velas em casquilhos de porcelana que nunca percebi se serviam para iluminar ou se apenas tinham por missão dar forma às sombras."

Obrigado caro Henrique.

 

Nuno Espinal

 


publicado por Miradouro de Vila Cova | Segunda-feira, 13 Janeiro , 2020, 23:47

Por Henrique Gabriel

 

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Foto: a velha "Faema" do Café do Vasco

Longos eram os dias de Inverno naqueles finais dos anos 60, para quem tinha sido fadado a permanecer em Vila Cova. Alguns tinham partido em busca de melhores aventuranças, Lisboa de preferência, os mais arrojados rumaram para as Áfricas. Outros, pelo sim pelo não, por falta de vontade ou por aceitação, aqui sabemos com o que contamos e partir era coisa de atrevidos, por cá se ficaram que também era preciso quem amanhasse as terras.

Entre sementeiras e colheitas, as chuvas e as intempéries, as cheias do rio e o manto branco das geadas, "que hoje está cá uma camada!", restava o fumo das chaminés que dava aroma ao nevoeiro.

Havia que matar o tempo e acalmar as necessidades, que de misérias nem se dava conta, era assim e pronto!

Local de encontro, o Café Santa Cruz (por mais tarde Mira Rio) ou Café do Vasco, desde há cem anos que assim era e continuaria a ser, pois do séc. XIX datava a mercearia. Ainda há pouco a Barbearia tinha sido desfeita, que barba e cabelo não era herança a gosto, havia que modernizar, e eis que chega a máquina do café, uma Faema pois então! Brilhante, resplandecente e orgulhosa do seu cromado, coisa moderna.  Bom, na verdade, essa funcionava só no Verão, pois havia que economizar e a clientela não justificava o gasto de eletricidade. Entre copos de vinho, tremoços e amendoins, repasto merecido após a terceira rodada, lá ia saindo o cafezinho de cafeteira do fogão de dois bicos debaixo do lava-louça. 

Mas o "café" tinha clientela certa com hora e mesa marcada, não mais que dois ou três, mas fieis, e até pagavam a bica a 3 tostões. Houve que separar clientelas que uma Faema tão bem cromada não fazia boa vizinhança com o copo de tinto. Como a arte aguça o engenho, obras na cave, e a loja da lenha antes albergue de burros, virou a Cova Funda, taberna de eleição. Local de degustação dos tintos da região e acepipes gastronómicos que iam do tremoço à sardinha albardada passando pelos amendoins e pelos carapaus com molho de escabeche, sala para a suecada e a tulha da salga do porco. E era ver as pipas alinhadas, umas cheias outras vazias, mas todas tratadas com "mecha" e a preceito, Batoques bem arrolhados, não fossem ficar com "vazio" e azedar o vinho.  A um canto, o bidão do petróleo com a sua maquineta de dar á bomba, bem por demais necessário, que eletricidade era coisa para poucos e havia que alimentar as candeias. Por debaixo do lava-louça de mármore escuro, o garrafão da aguardente que naquelas manhãs geladas havia que "matar o bicho".

E era ali, que naquelas meias tardes, meias noites, ou talvez fins de dia que se iniciavam nas madrugadas, que tudo acontecia. Era gente de pouca cama.

Saca de serapilheira ao ombro, ou a cobrir as costas e a cabeça. Era instrumento de muitas funções dependendo do tempo e da tarefa a cumprir. Servia de almofada ao ombro quando carregava a enxada ou molhos de lenha, de capote quando chovia e sempre dava para carregar umas pinhas para a lareira ou trazer alguns "mimos" da horta.

Era vê-los chegar.

-Ó Vasco dá aí um copo. Isto é que está um tempo. Já não é hoje que vou sachar...ó Vasco, olha que eu não sou "careca".*

-Tinha prometido pró Pinheiral, mas assim não dá e amanhã, se não chover, já tenho prometido para o Sr.Teixeira...tu é que lá podias ir desenrascar que eu na posso estar em dois lados....

-Na posso que esta semana ando por conta do Convento....

E chegava o Fernando "Preguiça" e o irmão Manel "Parrana", mais o Augusto "Chamiço" e o Tó "Badalo" e o "Mete-Mete" mais o Luís "Corneta" e o Benjamim "Policia" e ainda o Luís “Manjerico”e o "Giribita", montado na sua égua desde a Digueifel, e o Augusto Lourenço, o António "Rasgado", o Porfírio, o Ti Zé Salazar, o António "Cantoneiro", o Ti Zé "da Laura", o João Vicente com os seus resineiros, vindos também de Anceriz, Digueifel e Vinhó, mais o Sapateiro de Avô, à procura de clientela e armado de lápis e cartão para tirar os moldes ali mesmo, e o Barbeiro Tavares de Vinhó com loja aberta do outro lado da estrada. E tantos, tantos outros....

E entre o "isto está cada vez pior" e brincadeiras de ocasião, lá se ía ouvindo:

- ò Vasco enche aí que agora pago eu....

-È pá, isto é que tá um tempo... e eu que tinha prometido....

----

Ao aproximar da hora da ceia, novas personagens entravam em cena: Elas.

Aí, assentavam os vapores e tudo voltava a ser como realmente era.

Elas, que durante o dia se tinham mantido escondidas nos afazeres da lida da casa, faziam agora as suas aparições.

Uma de cada vez, com intervalos mais ao menos regulares, assomavam à porta da Cova Funda, e era ver a algazarra, os risos e as gargalhadas resultantes dos prazeres de Baco, a transformarem-se em profundos e comprometidos silêncios. E lá havia um que se levantava, tentando dar a entender que acabara de chegar, mas o torpor das pernas logo o desmentia.

-Ráis partam, na devia ter bebido este último....

E lá saía, bico calado, que ela "desta vez" até tem razão, enquanto ia ouvindo nas suas costa, à laia de ladainha:

-É sempre a mesma coisa, na tens vergonha nenhuma, olha lá  a tua figura...na vez que as companhias dão cabo de ti...é sempre a mesma coisa....

E a quase todos cabia tal sorte, lá iam saindo à frente delas, desaparecendo nas ruas iluminadas por lâmpadas de 20 velas em casquilhos de porcelana que nunca percebi se serviam para iluminar ou se apenas tinham por missão dar forma às sombras.

 

* Expressão usada quando os copos iam mal cheios.

 


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