publicado por Miradouro de Vila Cova | Sábado, 11 Junho , 2011, 14:46

 

 

Por ocasião da feira de sabores adquiri o DVD gravado pela Filarmónica Flor do Alva.

Visualizei-o hoje, Dia De Portugal, e ouvi o concerto.

Sob forte emoção e a quente, decidi colocar no papel a impressão que me causou.

Faço-o, porém, em dois compassos separados no tempo por cerca de 50 anos: eu, miúdo, e a Filarmónica e eu, maduro, e a Filarmónica.

 

Eu, miúdo

 

Tenho a minha casa junto da casa que, durante muitos anos, foi a sede da Filarmónica.

Habituei-me, pois, a ouvi-la nos ensaios e não raras vezes adormeci ao som repetido do seu reportório; assisti, vezes sem conta, à sua saída para as festas que ia abrilhantar; constatei outras tantas vezes à sua chegada e, algumas vezes notei que o tom de algumas vozes mais exaltadas (sempre tive a dúvida se era um copito a mais ou a menos - discussões que eram trovoadas de Maio, com ameaças de “não volto mais à música” – tretas, no ensaio seguinte lá estavam todos), enfim, diria que era a vida própria da colectividade.

 

Destacava-se, com muita ênfase, que a Filarmónica era o veículo do nome de Vila Cova , o que era e é verdade.

 

Mas eu lembro-me muito bem do que pensava então. E recordo que perpassava pelo meu pensamento quanta dedicação e amor à música havia naqueles homens (ao tempo, a filarmónica ainda não tinha executantes femininas), que depois de um dia de trabalho no campo ainda se dispunham a vir ensaiar à noite; e lembro-me de ver naquele conjunto de pessoas exemplos de dignidade, de bondade, de referência para os mais novos, eles eram seguramente dos melhores que Vila Cova possuía.

 

Vim a perceber, mais tarde, que cultivavam a arte e a cultura, que escreviam a história de Vila Cova sendo actores, eram pessoas de grande qualidade. Gostava de referir nomes mas temo esquecer algum importante o que não faria por menos consideração, mas não posso deixar de referir o nome do Sr. Adelino de Oliveira que, durante anos e anos, foi o “Mestre da Música”. A ele se deve, em boa medida, a continuidade da filarmónica até aos nossos dias pois lhe assegurou sempre a direcção artística em épocas de crise.

 

E eu sentia, então, uma falta na minha formação de jovem, eu não estive entre eles, não frequentei aquela escola de valores e como me sentiria orgulhoso se a tivesse frequentado.

 

Eu, maduro

 

Ao visualizar hoje o DVD, constato que a Flor do Alva enriqueceu, tem-lhe corrido bem a vida, não foi atingida pela crise …

 

Confesso que não sei que mais admirar, porque as diferenças são muitas, sendo certo que na base, os valores são os mesmos.

 

Desde logo, a sua Direcção Artística, actualizada e competente, impulsionando vários escalões etários, isto é, semeando desde já naquele coro infantil as plantas que mais tarde assegurarão o projecto da Filarmónica e desenvolvendo um reportório moderno que evidencia os vários naipes da banda.

 

Uma palavra para as monitoras com postura profissional, quais maestrinas um dia.

 

Depois, a juventude dos seus executantes, a sua composição democrática, jovens com alguns (poucos) mais velhos, rapazes e raparigas e já com muitos solistas, seguramente puxados pelo maestro António Simões, que são uma garantia de qualidade: o trompete, a flauta, qual canário a anunciar a chegada da Primavera, a “conversa entre clarinetes”, enfim, dá gosto ouvir e apreciar.

 

É caso para dizer, com todo o respeito pelos tempos idos, que “agora a música é outra”…

 

Vi o DVD de uma penada, já que ao iniciar, não consegui despegar do ecran. De vez em quando uma lágrima rebelde, chata, escapou-se ora de um ora de outro dos meus olhos de cor diferente, mas combinaram e abriram a torneira em simultâneo ao ouvirem a voz cristalina que cantou a Ave Maria.

 

Não há direito e logo no Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Lusíadas, dantes chamado o Dia da Raça, dia de orgulho dum povo com nove séculos de História.

 

Para mim foi, com orgulho, o dia da Filarmónica Flor do Alva, com nove dezenas de anos de História. Só tenho pena de não ter estado entre eles …

 

José Oliveira Alves

 

 

 


F Figueiredo a 16 de Junho de 2011 às 12:46
impossivel comentar um texto onde cada palavra é unm sopro de alma.
Bom sentir que neste País triste, resingão e cinzento, akguém ainda consegue colocar sentimernto no que escreve e fazer uma ponte com 50 anos a ligar as margens duma vida.
Obrigado O Alves, por ser capaz de transmitir como o fez as escorrências de sua semsibilidade

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