publicado por Miradouro de Vila Cova | Sábado, 05 Março , 2011, 21:52

Só o silêncio murmura

Em noite negra de breu.

Nem voz de gente ou alvura

Só manto de negro véu.

 

Mas eis que irrompe um lampejo

De nesga do céu surgido.

Uma estrelinha, um harpejo

Um oásis reflorido.

 

Tal naco de luz desponta

Por entre tanta negrura.

É um rosto que me afronta

E faísca formosura.

 

O rosto antes tão vago

Ganhou um traço preciso.

Doce, belo, terno afago

Um deleite o sorriso.

 

À fantasia me entrego

A tanto encanto me rendo.

À afeição me apego

É já paixão em crescendo.

 

Neste doce enlevamento

Cantei loas à ventura

Mas, por tão grato momento,

Desconfiei da fartura.

 

E bem que avisado fui

Pois pressenti a desdita

Já que uma névoa dilui

Toda a luz da estrelita.

 

O rosto já se desfez

A escuridão é total

Tornou tudo à aridez

Triste sina o real.

 

É este o fado da vida

Tão fugaz a felicidade.

Fica um gosto de bebida

Fica sempre a saudade.

 

Nuno Espinal

Vila Cova, 1 de Novembro de 2010


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