publicado por Miradouro de Vila Cova | Quarta-feira, 24 Março , 2010, 08:30

Há dias uma jovem vilacovense pediu-me que lhe respondesse a algumas perguntas sobre a minha experiência na guerra colonial (anos 70 e 71), para um trabalho seu na escola.

Concluída a entrevista, fiquei entregue a muitas das recordações de acontecimentos que nesse período vivi.

Houve-os menos felizes, alguns bem tristes, contingências típicas de cenário de guerra, mas enfoquei a memória a episódios gratificantes, alguns bem “folgazões”.

Permitam-me que partilhe convosco uma breve e engraçada historieta, a do Asdrúbal.

O Asdrúbal era um soldado básico, que nada devia à inteligência. Servia na messe de graduados, onde lavava pratos e copos e servia umas cervejas e uísques.  

Ora, a messe à noite, naquele aquartelamento no sopé da serra de kanda, no norte de Angola, era espaço de jogos de cartas e conversas acaloradas, estas muitas vezes de política. Eu mais alguns formávamos o grupo dos “esquerdelhos” e fervilhávamos ideias e convicções sobre a luta na América Latina, Che Guevera, Fidel de Castro e a revolução em Cuba.

O bom do Asdrúbal um dia, farto de tanto ouvir, não se conteve e comentou: Os “mês” alferes e furriéis que me desculpem. Mas é que os senhores cometem aí um erro. Eu sou alentejano, de Cuba e garanto-vos que em Cuba, minha terra, não há nenhum Fidel de Castro. Isso posso-vos eu jurar pelo que de mais sagrado há!

Foi a risada geral e o gozo instalado. O Asdrúbal é que não gostou nada da chacota e ofendido conseguiu chegar à fala com o comandante e não se coibiu de dizer: “Mê” comandante, na messe não me têm respeito. Passam a vida a falar de Cuba, que é a minha terra e de um tal Fidel de Castro que lá mora e eu garanto ao meu comandante que lá não há Fidel de Castro nenhum".

O Comandante é que não gostou nada da história. Reaccionário e salazarento ficou em brasa sobre o ambiente esquerdizante da messe. O quê, conversas subversivas em pleno palco de guerra?

Chamou-nos a todos, “parangonou-nos” com pátria para aqui, pátria para ali e proibiu-nos de proferir uma palavra que fosse sobre ideias de esquerda, fossem quais fossem e que atentassem contra a integridade do nosso “Portugal uno e indivisível”.

Claro, que continuámos a ter as nossas conversas. Mas com todos os cuidados. O Asdrúbal, na galhofa, passou, para nós a ser “bufo da pide”. É que, mal se aproximava, mutismo total. Ele, mesmo na sua ignorância, isso percebeu. Inchava todo. Afinal, o respeitinho é muito bonito!   

 

Nuno Espinal

 

 


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