
A cena passa-se num dos Verões de”60”. A “Malta” encontrava-se em peso na “Senhora da Graça”, em deguste de uma animada patuscada, que preenchia o conjunto de tertúlias tão típicas desses tempos.
Lá estava o Sr. Prior, o saudoso Padre Januário, vulgo o Sr. Santos, nome próprio da informalidade desses momentos de paródia.
Iniciavam-se as primeiras garfadas, subia a galhofa no avolumar das primeiras goladas de um bom tinto, quando surgiu, uns metros ao longe, o castiço Luís Negro, o pastor do Convento, “corneta” de alcunha, cabeçorra meio de lado a espreitar, a perscrutar motivo de tanto alarido, naquele seu jeito desengonçado, com a velha jaqueta de bedum ao ombro.
Logo alguém o avista e o chamamento faz-se ouvir:
“Anda cá Luís, anda beber um copo.”
O Luís Negro não se faz rogado, ele e cajado, andar manquejado, a chegar-se à mesa onde se variavam chamativos os pitéus. Dá, o Luís, com o Sr. Prior agarrado a uma perna de frango.
Ólh’ó Sr. Prior!
Olha lá Luís, vá lá come uma também…
-Eu Sr. Prior! Pernas? Nem pensar…pernas, p’ra mim Sr. Prior, só se for pr’ás pôr cada uma p’ra seu lado!
Há quem diga que o bom Padre Januário não se engasgou só por um triz. Quanto à “Malta”, um resíduo de reverência impôs, a muito custo, a contenção do riso. E o magano do Luís, percebendo o impacto da tirada, emborcou um ainda mais gozado copo de tinto.
Nuno Espinal
