publicado por Miradouro de Vila Cova | Sexta-feira, 09 Outubro , 2009, 09:18

Quando somos novos, rondando a idade da adolescência, apetece-nos por vezes contrariar os mais velhos, quanto mais não seja por uma mera questão de afirmação pessoal. Talvez por isso e porque os mais velhos a adoravam, víamos em Amália e, consequentemente no fado, um meio para nos opormos ao estatuto que nos impunham de obediência aos cânones por eles ditados. A par disso surgiu um fenómeno chamado Beatles que nos fez delirar e nos levou à negação de outros padrões musicais. Fossem eles do fado, da música popular,  da música erudita ou outras. Lembro-me, dessa altura, de um episódio que se passou comigo quando morava na Ajuda, andava eu e o meu irmão em estudos secundários. Por baixo de mim morava um senhor apaixonado pela música erudita que, por vezes, nos “impingia” trechos clássicos na esperança de nos cativar para aquele género musical. Lá vinham o Mozart, o Wagner , o Schubert, etc., etc. e o inevitável Beethoven com as suas sinfonias a que eu, num falso desprezo, chamava Beetonias. Hoje o meu mp3,  cuja companhia não dispenso, encontra-se recheado dessas melodias “clássicas” e fazem parte do meu quotidiano.

Quanto à Amália, a nossa Grande Amália, entrou-me na alma em paragens africanas, quando cumpria comissão militar. Por entre penumbras , cigarros e cerveja, num toque sentido de saudades imensas, ouvi Amália num velho gravador. A dolência do fado, a sua interpretação sempre elevada ao máximo, a lembrança dos entes  tão distantes fizeram, naqueles momentos, que o fado entrasse irremediavelmente no meu sangue. Por entre lágrimas que não consegui conter, sorvi toda a cadência dolorosa da sua voz e gravei para sempre no meu peito a Saudade de ser português, a Saudade de Amália. Há festa na Mouraria/É dia de procissão/Da Senhora da Saúde/E até a Rosa Maria/Da rua do Capelão/parece que tem virtude… Presto assim a minha muito singela homenagem a um dos maiores vultos da nossa cultura e da nossa história. Portugal seria mais triste sem Ela. Atrevo-me a parafrasear uns versos que Amália escreveu:

“Oh Amália” da minha terra

Agora é que eu descobri

Que esta tristeza que trago

Foi de ti que recebi…

 

 

Lágrimas por Amália.

 

Quim Espiñal

 


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