publicado por Miradouro de Vila Cova | Sábado, 07 Abril , 2007, 21:38
O Dr. José Afonso foi, no meu trajecto de vida, um privilégio. Tudo começou por uma entrevista, quando, com mero estatuto de amador, fui entrevistador.
Mas, vamos à história: 
A Revista “Espaço Aberto”, na qual participei durante anos, tinha intuitos meramente culturais. Enquanto seu colaborador, dediquei-me, em especial, à área das entrevistas.
Daí a oportunidade que tive de entrevistar inúmeras personalidades do meio cultural. De entre todas, destaco Amália Rodrigues e Zeca Afonso.
Contudo, a entrevista a Zeca Afonso, já lá vão uns 23 anos, viria, para mim, a valer mais do que o próprio momento e tempo em que perdurou. Porque foi a partir dela que entrei no círculo de convivência de José Afonso.
Confesso que quando, pela primeira vez, estive frente a frente com o Zeca, no seu apartamento em Brejos de Azeitão, senti uma certa inibição. Estava ali um grande ídolo, um ídolo da minha juventude, um ídolo de sempre. Revelei-lhe até: “Sabe? Estou positivamente à rasca”. O Zeca sorriu e percebi que me achou piada. Pôs-me logo à vontade: “Quero que me trates por tu, pá”.
A doença já o minava. “Uma doença chata, muito chata”, dizia-me. As pernas já se esforçavam com custo, as mãos tremiam-lhe, os dedos mal lhe obedeciam.
A entrevista correu bem. Claro, Zeca falava com grande saber e fluidez. À despedida uma nota da empatia criada: “Volta, pá, gostei de te conhecer. Mas volta mesmo.” E voltei e tornei a voltar, e cada vez mais, a ponto de me vir a tornar uma visita habitual da casa.
O Zeca gostava de conversar. Era um poço de saber e um bom contador de histórias. Conversávamos sobre tudo. Recordo do entusiasmo com que falava da “Teologia da Libertação”, um assunto muito presente na altura. E tinha um humor acutilante e oportuno. Certa tarde observávamos o zelo excessivo com que um operário, que o Zeca conhecia de uma fábrica de Setúbal, lavava e alindava o carro. Passou horas e horas em torno do seu objecto de posse. “Ora aí está o que se chama um verdadeiro exemplar…”. “Um exemplar? Um exemplar do quê Zeca?”. “Do proleta do popó”, respondeu-me.
 
Um dia vieram à fala as minhas origens. Vila Cova lá a meti na conversa, claro. E era inevitável: a Flor do Alva também. Foi então que Zeca Afonso comentou: “Sabes? Tenho uma grande admiração por Filarmónicas. São uma verdadeira escola de música. As únicas que o povo tem ao dispor. A grande maioria dos portugueses não sabe ler uma pauta de música. E a grande percentagem dos que o são capazes de fazer é nos meios rurais que os vamos encontrar. E isso deve-se às Filarmónicas”.
 
Em dia aniversário, a minha homenagem à Filarmónica Flor do Alva, prestada nas palavras do saudoso José Afonso.
 
 
 
Nuno Espinal

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