publicado por Miradouro de Vila Cova | Sexta-feira, 29 Maio , 2009, 02:24

 

O escritor Joaquim Leitão, nascido no Porto em 1875, era filho de vilacovenses. Notabilizou-se com muitas obras publicadas, de entre elas uma de título “Val d’Amores”, que é um conjunto de contos, editado em 1930.
Dos contos de Val d’Amores, um deles, “Para Quem Vier”, tem todo o trama desenrolado em Vila Cova, com referência a locais e personagens do habitat e universo humano vilacovenses.
A leitura deste breve e comovente conto foi para mim uma emoção. Mas foi também um exercício de imaginação, quando pincelei mentalmente cenas e imagens vividas em meados do século XIX, período em que é presumível ter-se passado todo o enredo do conto.
Passo a publicar, hoje e em próximas edições, para os leitores do Miradouro, alguns trechos desse conto, e num deles realço, pela curiosidade, a referência ao “teixo” da Senhora da Graça, árvore considerada por botânicos como das mais antigas senão a mais antiga do concelho.
Um impulso levou-me, de imediato, a fotografar a árvore. E nas lucubrações fantasiosas a que o conto me levou, recuei a princípios de 1900 e fixei-me numa foto desses tempos da Família Figueiredo, em pose na Fonte da Senhora da Graça, com um aparente poço em primeiro plano, mais tarde transformado em pequeno lago, que ainda hoje se mantém.
Eis o trecho do conto:
/…/
“ O melro continuava a gozar-se imprevidente a manhã, assobiando a sua área vagabunda.
O milhafre firmou bem o ponto donde vinha a desgarrada, baixou o olho para o seu poiso, tornou a fitar o loureiro canoro. Medida a distância, retesou as pernas, empurrou a serra, disparou voo contra o estudado ramo, e, passando em flecha, arrebatou nas garras o desprevenido cantor.
Subiam no azul amanhecente a sombra rapace e a presa, quando três trovões saíram da garganta de um homem que descia à várzea. Atordoado com os sonidos daquela verdadeira trompa de caça soprada por furacão, o rapinante largou cobardemente o melro. O homem de voz estentorosa pegou nele, ameigou-o, meteu-o entre o peito e a camisa de estopa, e assim que o viu mais animadito, restituiu-o ao seu viver boémio.
Moças que lavavam no rio, mal o homem lhes passou ao alcance, interpelaram-no:
-Ó ti’ João Antunes! Assim está tão arrenegado?...
Contado como destrocera o caminho daquelas aves raptoras, uma rapariga comentou, as mais todas a rir.
-Olha o milagre! Até nó estremecemos quanto mais o milhano. Vocemecê tem um arcaz que nem o teixo do convento…”
/…/
 
 
Nuno Espinal
 
 
 

 

 


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