publicado por Miradouro de Vila Cova | Quinta-feira, 14 Janeiro , 2021, 23:14

Jogos Populares (2)

A preservação memorial dos chamados “jogos tradicionais” é uma atitude de manifestação cultural, que se insere na história de cada terra, de cada região e de cada país.

Torna-se mesmo uma necessidade, já que os avanços da tecnologia são contributos para um crescimento enorme de jogos eletrónicos, o que implica que os jogos tradicionais sejam, não só, cada vez menos praticados, como até tenham, em muitas localidades, desaparecido.

Em Vila Cova, para além de, na atualidade, o número reduzido de crianças ser uma evidência, pode mesmo afirmar-se que os jogos tradicionais desapareceram de vez.

Contudo, nos anos 50 e 60 ainda eram entretenimento das crianças, conquanto, nos anos 60, com o alcatroamento da estrada, a frequência com que eram praticados acarretasse o início do seu declínio.

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Jogo da Bola

Recuso a chamar-lhe “futebol”, porque as semelhanças, naqueles anos das décadas 50 e 60, pouco mais eram do que a existência de uma bola, nunca igual à oficialmente reconhecida, e pontapés na “redonda”, de modo a que, mais chuto, menos chuto, chegasse à situação propícia de um biqueiro que levasse a bola a ultrapassar a linha de baliza da equipa adversária.

Onze contra onze era quase improvável atendendo às dimensões dos recintos onde os jogos eram efetuados.

O espaço onde posteriormente foi construída a Casa do Povo era o terreiro de eleição das jogatanas de bola nos anos 50 5 60.

As regras eram simples: bola na mão de um jogador que não os guarda redes era falta e uma ou outra caneladazita também contava como infração. Penaltis não havia e foras de jogo era coisa que ninguém conhecia. E tudo ao critério dos jogadores porque árbitro era coisa de outro mundo.

Mas, as jogatanas lá se faziam e acabavam quando um outro jogador saía, ou por estar farto ou por cansaço.

As balizas eram marcadas com calhaus e em cada jogo as dimensões variavam.

Recordo que uma vez, em período das minhas férias escolares, tinha para aí uns doze anos, fui convidado para integrar uma equipa que não sei se representava o Benfica ou o Sporting.

Só me lembro que tinham formado equipas em representação, cada uma, de um dos dois clubes.

Ao saber do combinado disse logo.

- “Eu só represento a Académica”. De facto, por via da minha família paterna, toda Briosa, outro clube não poderia ter.

Ao meu comentário ninguém ligou.

Acontece que, quis o acaso, que marcasse um golo. E não demorei a bradar alto e bom som:

- “Este golo foi da Académica”.

E logo alguém ripostou:

- “Se foi da Académica, não é do clube que você representa”.

- “Isso não me interessa”, respondi, “essa questão é um assunto vosso. Eu bem vos avisei"

Gerou-se discussão, não houve consenso e o jogo terminou ali.

 Pião

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A pobreza da maioria das famílias em Vila Cova impedia as crianças de adquirirem piões contruídos com uma melhor estrutura, em mercados próprios.  

Contudo, com um torno tudo se resolvia.

Dono de um torno era o tio João Caldeira, homem já velhote na década de cinquenta, mas que correspondia aos pedidos das crianças, e barafustando, lá lhes arranjava um pião.

Um prego era martelado na cabeça do pião em direção à parte mais baixa e a parte do prego que daí saía era o bico do pião.

Para jogar ao pião, com vários jogadores, marcava-se em piso térreo uma circunferência que deveria ter de diâmetro cerca de metro e meio.

O objetivo do jogo era os jogadores projetarem o seu pião em direção ao círculo e conseguir que o seu pião projetasse os restantes para fora do círculo.

Para um melhor desempenho do pião, para além de um jeito próprio no seu lançamento, devia-se enrolar um cordel, sem folgas, à sua volta, cordel que era seguro, na extremidade solta, com a mão, a fim de o projetar o pião para o sítio pretendido, desenrolando-se o cordel com um golpe rápido e rápido da mão.

Cabra-Cega

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O jogo da Cabra-Cega requeria pelo menos três participantes.

Um dos participantes era escolhido como “cabra cega”, pelo que se lhe vendavam os olhos com um lenço de forma a que não pudesse vislumbrar nada.

Os outros participantes deviam fugir-lhe a fim de não serem tocados ou agarrados.

Para um melhor funcionamento do jogo, o espaço onde se desenrolava deveria ser pequeno, dando maiores possibilidades ao “Cabra-Cega" de poder tocar ou agarrar um dos outros participantes

Jogo do Eixo

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Os jogadores, excetuando o  que ia saltar primeiro, amochavam em linha, ou seja, dobravam o corpo e a cabeça para a frente, separados entre si cerca de um metro.

O jogador saltador, fazia o salto apoiando as mãos no dorso dos jogadores que estavam curvados.

Logo que terminasse todos os saltos amochava, tomando a posição de saltador o jogador que estava no primeiro lugar dos amochados.

O jogo terminava quando os jogadores o entendiam.

Jogo do Botão

 

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Cada jogador atirava o seu botão na direção da uma cova, previamente esburacada.

 O jogador que atirasse o botão mais perto da cova tinha prioridade na jogada seguinte que era a de introduzir o botão na cova, jogando o botão com um toque de dedo.

Seguiam-no, nesta tentativa os restantes jogadores, mantendo-se o critério da distância à cova.

O jogador que primeiro conseguisse meter o seu botão na cova, ganhava os botões dos outros jogadores.

Saltar à Corda

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O objetivo deste jogo é saltar uma corda, com cerca de dez metros de comprimento, segurada nas pontas por dois jogadores, que a fazem balançar em movimentos circulares.

Os participantes em jogo vão saltando, um de cada vez, por cima da corda sempre que esta, no seu movimento circular, se aproximar dos seus pés, terminando a jogada quando o saltador tocar a corda, dando a vez ao jogador seguinte.

Há também uma outra opção de disputa deste jogo: cada jogador salta com a sua corda, que deve medir dois metros de comprimento.

Os saltos variam na sua forma: aos pés juntos, ao pé coxinho e no seu próprio ritmo, circulando a corda com mais ou menos velocidade.

Em Vila Cova eram as meninas que mais jogavam à corda.

Arco e Gancheta

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O objetivo do jogo do arco e gancheta era o de colocar os participantes a rolar um arco de metal, empurrado por uma vara com gancheta, que podia ser uma vareta de metal ou de madeira com um gancho na ponta e que tinha a função de direcionar ou travar o arco.

Os participantes partiam de um ponto de partida, até atingirem uma linha que era a meta.

Havia, contudo, crianças que sozinhas se entretinham a manusear o arco e a gancheta.

Jogo da Macaca

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Este jogo implicava, logo à partida, desenhar a macaca, conforme figura que publicamos.

Para o jogar a criança lançava uma marca (geralmente uma pedra achatada) para a primeira casa e deslocava-se até lá ao pé coxinho, apanhando a marca e voltando para trás.

Cumprida a primeira casa, a criança passava ao passo seguinte que se tornava igual ao antecedente, com a diferença de o objetivo ser a segunda casa.

E, assim, sucessivamente, cumpria todas as casas até chegar ao último patamar.

Nas casas 4 e 5 e 7 e 8 os dois pés deviam ser colocados em simultâneo.

Quando cumpria a última casa era obrigado a efetuar o percurso contrário.

Berlinde

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Poucas eram as crianças que dispunham de berlinde, já que para os ter era preciso comprá-los e, provavelmente, só em Arganil, como localidade mais próxima onde era possível adquiri-los.

Mas, os poucos que os tinham lá os utilizavam no jogo, o qual começava por exigir a existência de uma cova.

A uma distância combinada lançava-se o berlinde para a cova.

O berlinde era lançado por um pequeno movimento do polegar e do indicador.

Se o berlinde entrasse na cova, o jogador continuava em ação, com o intuito de atirar o berlinde do adversário o mais longe possível da cova.

Caso consiguisse tocar o berlinde do adversário, o jogador tornava a lançar o berlinde para a cova e a sequência de procedimentos era a mesma.

Caso falhasse um destes procedimentos dava a vez ao adversário e o jogo seguia com as regras referidas.

 

Nuno Espinal


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