Pintura a Óleo de Nazaré Pereira (Dra. Zita)
Desfolhei hoje um velho livro escolar, da disciplina de Francês do antigo 5º ano dos liceus e dei com os olhos num texto pleno, para mim, de recordação e emoção. O texto relata a vida rural de uma aldeia francesa, situada nas montanhas, cujos habitantes se dedicavam à vida agrícola e pastorícia.
Quando, como aluno, fiz a tradução em casa daquela lição, na iminência de ao outro dia ser confrontado com uma chamada oral, recordo-me do prazer que tive naquela tarefa, o que para mim era um caso invulgar, por certa cabulice que nos meus tempos de juventude me caracterizou.
Mas, que raio de prazer este, surgido como milagre? Porque carga de água?
Recordo-me de tudo perfeitamente e a razão era tão só esta que vos passo a explicar:
Nesse tempo, princípio da década de sessenta, Vila Cova era totalmente rural, com o labor agrícola a marcar a ocupação diária. As minhas vindas à terra, nos períodos de férias, proporcionavam-me essa realidade e realçavam-me a grande simplicidade campesina com que o correr dos dias era vivido. Fascinava-me essa vivência, esse bucolismo de então.
O encanto dessa Vila Cova rural atiçou-me o empenhamento pela analogia que o texto, mesmo difícil e extenso, me provocou.
Hoje tudo está diferente. Foi-se a vida agrícola no que tinha de marcante e perdeu-se muito, mas mesmo muito, do bucolismo e ruralidade de então.
Claro, diremos todos, ainda bem que assim é. Todos o sabemos: a tal vida de miséria daqueles tempos…
É verdade que sim, e eu bem o aplaudo, entusiasmado pelas crenças ideológicas a que sempre me arreiguei.
Mas, amigos, por mais que se me fundamente este realidade de hoje, continua a bater-me na memória o fascínio daqueles tempos.
Nada a fazer: contradições assumidas.
Nuno Espinal
