publicado por Miradouro de Vila Cova | Sábado, 06 Junho , 2020, 09:01

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Um nosso leitor, que me pediu anonimato, questiona-me sobre um trecho de uma peça publicada no Miradouro, em 28 de maio, com o título “Flor do Alva: Vamos Vencer!”.

O trecho é o seguinte: “(do Povo) há um sentir a sua Vila Cova que, sem chauvinismos, é demonstrativo de uma identidade, de um apego à tradição, que muito se manifesta em atos religiosos.”

Diz o leitor que “os atos e práticas religiosos são, maioritariamente, de uma tradição criada pela Igreja, que o povo segue por fé e devoção. Não são atos emergentes da vontade ou da iniciativa populares”.

Tem razão o leitor. E tem razão quando e porque diz que “os atos e práticas religiosos são”, e sublinho, “maioritariamente, de uma tradição criada pela Igreja”.

O leitor pensa o que eu penso. De facto, estes atos e práticas, no domínio da religião católica, (ou de outra que fosse), são ações orientadas para um valor absoluto, resultantes puramente de convicções religiosas.

São intrínsecas à própria estrutura da Igreja e perduram “in saecula saeculorum”, com uma ou outra alteração no percurso dos tempos, determinadas sempre pela superestrutura da Igreja.

Ora, não é destas tradições, que pertencem à liturgia, aos ritos, às preces, aos gestos, às convicções da Igreja Católica, que são intrinsecamente da sua estrutura e da sua própria ética, que refiro quando digo que o apego à tradição dos vilacovenses muito se manifesta em atos religiosos.

Falo sim de manifestações que têm um cunho fortemente popular, ações que, também associadas a manifestações religiosas e orientadas pela tradição, que advém de uma prática continuada definidora de certos comportamentos.   

Vamos a exemplos:

Na Festa de Santa Cruz realiza-se sempre uma Missa que tem sido celebrada na Igreja do Convento. Um ano houve em que, no fim da Missa, por uma questão de tempo, já que o Padre Rodolfo Leite tinha uma sequência de compromissos marcados, não foi cantado, fugindo à tradição, o cântico das “Três Marias”. Houve logo um chorrilho de lamentações por parte de muitos fiéis, censurando o não cumprimento de um tal ritual, que arreigam a uma tradição que tomam como sua. Repare-se que o cerimonial litúrgico foi cumprido na íntegra, naquilo que é a sua essência, ou seja, numa celebração pré-definida pela estrutura da Igreja Católica. Mas, a capacidade racional de entender a essência do ritual colapsa perante aquilo que é a tradição e a forma como é percecionada pela comunidade de fiéis.

Um outro exemplo:

As Procissões do S. João e de Nossa Senhora da Natividade realizam-se num percurso extenso, que se inicia na Matriz, segue pela Rua Direita até à estrada, e continua até à última casa da povoação, tomada que seja a direção de Avô. Perante a dimensão excessiva do percurso, cansativo de cumprir em dias de sol abrasador e impeditivo da presença de pessoas mais idosas, o Padre Daniel Rodrigues sugeriu o seu encurtamento, alvitrando a possibilidade de a Procissão virar à Praça, aquando do encontro da estrada com a Rua Padre Januário. A população reagiu contra esta proposta, sem ponderar a racionalidade ou não da sugestão. A tradição foi o argumento utilizado, como se a palavra só por si contivesse toda a argumentaria contrariadora de qualquer ideia opositora.  

Um último exemplo, de entre outros mais que poderiam ser apresentados:  

A bênção de ramos de loureiro, oliveira e alecrim, que antecede a procissão que evoca simbolicamente a entrada triunfante de Cristo em Jerusalém, é celebrada, no Domingo de Ramos, no átrio cimeiro da Igreja do Convento. Atendendo à escadaria da Igreja, com bastantes degraus, alguém sugeriu, em defesa dos mais idosos e dos que têm menor autonomia locomotiva, que a bênção dos ramos fosse celebrada num local com melhor acessibilidade. Foi, à partida, logo silenciado na sua proposta, com a eterno alegação da tradição.

E pronto. Espero que o leitor que se contrapôs com toda a correção ao meu comentário, tenha apreendido a fundamentação que expus. Fica vincada a força da tradição popular, no seu melhor ou pior, quando associada a manifestações religiosas.

Ao leitor o meu muito obrigado pela colaboração. Um obrigado que também quero estender a todos os cerca de 500 leitores que diariamente nos visitam.

Muito obrigado a todos.

 

Nuno Espinal


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