publicado por Miradouro de Vila Cova | Terça-feira, 04 Outubro , 2016, 19:51

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Faleceu sábado passado o escritor Mário Braga, autor, entre vários títulos publicados, de uma novela de 1956, “Vale de Crugens” que retrata aspetos da vida social de Vila Cova àquela época.

De um escrito, da Dra. Maria Teresa Pinto Mendes, retiramos o seguinte excerto, que elucida sobre esta novela e o seu retrato de Vila Cova.

Importa ainda referir que a ligação do escritor a Vila Cova se estabeleceu com a família Leitão, da Quinta do Pinheiral, cuja casa o escritor visitava com alguma assiduidade:

 

Em 1936 a vida em Vila Cova ainda é considerada próspera. Não o foi nos anos que se seguiram, ou não foi e, se calhar desde sempre, de igualdade para todas as camadas da população. A vida correu lentamente, sob o peso da interioridade. O litoral, a capital, outros países até, exerceram uma atração sobre a população, aqui como por toda a chamada “província”, a população que se rarefez com uma consequente e natural perda. Encontramos na pequena novela de Mário Braga “Vale de Crugens”, publicada em 1958, a imagem de um dia a dia daqueles que já só viviam, ou já quase só viviam de uma agricultura cheia de contingências. Fala-nos de um Verão em que “as ribeiras estavam secas e o céu continuava limpo de nuvens. O Alva corria por um estreito fio de água verde cingido á margem direita, que não fazia, sequer, rodar o engenho da moenda. O calor abafava o vale “, por outro lado mostra os estragos das invernias quando diz: “sobrevoado por turbilhões de trovoadas juntas, arrastando aos pulos nas águas barrentas, abóboras, troncos e caniços”, soltando rodas de azenhas, pondo garotos chapinhando “na água, correndo atrás das maçãs e das peras. Dia em cheio para eles. Inverno de fome…” Mais adiante conta que, num dado Outono, “as trovoadas devastaram mais uma vez a várzea do Alva, e o ano foi de fome para a gente do vale”. É ainda o Alva a polarizar a vida da população e a atenção do romancista; o doce Alva cantado pelo poeta e tão apreciado por todos nós, acusado de malfeitorias, das quais o temos que ilibar acusando antes as trovoadas e o degelo da Serra. Quem conhecendo Vila Cova tenha privado com Mário Braga á data da publicação desta novela, sabe bem que Vale de Crugens escondia o verdadeiro nome da terra cuja vida dura se descreve e que é efetivamente Vila Cova do Alva. A quem conhecendo Vila Cova sem privar com o autor em causa, também não lhe resta a mínima duvida de que Vila Cova se trata, já que se fala “na aldeia entalada entre as íngremes vertentes de um estreito valeiro nos contrafortes da Estrela”; a protagonista é Maria da Natividade – o orago.”

O escritor Mário Braga nasceu em Coimbra a 14 de julho de 1921 e era licenciado em Ciências Histórico-Filosóficas pela Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, onde lecionou.

Estreou-se em 1944, com o livro de contos “Nevoeiro” e publicou até 1997, com o ensaio “Momentos doutrinais”.

Foi diretor-geral da Secretaria de Estado da Comunicação Social e membro do Conselho Consultivo das Bibliotecas Itinerantes da Fundação Calouste Gulbenkian.

Neorrealista, Mário Braga foi ainda editor da revista coimbrã Vértice, de 1946 a 1965.

 

Nuno Espinal


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