publicado por Miradouro de Vila Cova | Domingo, 01 Junho , 2014, 14:03

Há anos vi um filme, de um realizador italiano, de nome Ettore Scola, que retrata a vida de uma família de recursos paupérrimos, a viver numa barraca imunda que coabitam na mais absurda promiscuidade, num quotidiano sem referências morais, de permanentes conflitos, traições e violência. O filme de nome “feios, porcos e maus”, remete-nos para a reflexão sobre a situação de miséria humana (a que não falta a alusão ao incesto) a que a pobreza pode conduzir.

Obviamente, menciono este filme com o propósito à analogia a um acontecimento recente que todos nós conhecemos e que nos foi (e é) perturbante. De tal modo perturbante que houve, quem entre nós, e não foram poucos, alvitrasse medidas redundantes em pesadas sanções aos culpados destas ações afrontadoras dos padrões mais sagrados da nossa moral. Aparte as menores, são naturalmente os adultos os alvos incontornáveis das iras populares.

Sem questionar a atuação da justiça que, para nossa segurança coletiva e individual, deve promover a sanção adequada à gravidade do ato ou atos praticados, não deixo contudo de trazer à reflexão a condição em que emergimos neste mundo social, que a alguns, por razões que eles próprios não dominam, os projetam num mundo sórdido e desigual.

Nem todos no nascimento somos iguais. Bem longe disso. E ai dos que quando nascem se vêm confrontados na luta da vida com armas desiguais. Para eles alguma tolerância. Quanto mais não seja no juízo das palavras.

Deixo, a propósito, algumas considerações de homens da psicologia e sociologia:

 

“Para a família pobre, marcada pela fome e pela miséria, a casa representa um espaço de privação, de instabilidade e de esgaçamento dos laços afetivos e de solidariedade. Quando a casa deixa de ser um espaço de proteção para ser um espaço de conflito, a superação desta situação dá-se de forma muito fragmentada, uma vez que esta família não dispõe de redes de apoio para enfrentar as adversidades, resultando, assim, na sua desestruturação. A realidade das famílias pobres não traz no seu seio familiar a harmonia para que ela possa ser a propulsora do desenvolvimento saudável de seus membros, uma vez que seus direitos estão sendo negados.”

 

“O ser humano é complexo e contraditório, ambivalente em seus sentimentos e condutas, capaz de construir e de destruir. Em condições sociais de escassez, de privação e de falta de perspectivas, as possibilidades de amar, de construir e de respeitar o outro ficam bastante ameaçadas. Na medida em que a vida à qual está submetido não o trata enquanto homem, suas respostas tendem à rudeza da sua mera defesa da sobrevivência.”

 

“Ao aprofundar a discussão sobre família, pôde-se fazer um retrato vivo dos reflexos que a crise económica impõe sobre as famílias pobres. Diante das reflexões apresentadas é possível afirmar que a situação de esgarçamento dos vínculos familiares resulta da miserabilidade a que estão sujeitas as famílias, sendo esta a mola propulsora para a sua desestruturação.”

 

Nuno Espinal


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