publicado por Miradouro de Vila Cova | Quarta-feira, 02 Outubro , 2013, 22:44
 

Em rescaldo ao período eleitoral autárquico há uma questão que se me suscita: O fenómeno dos independentes, enquanto organizados em grupo. E sublinho: “organizados em grupo”. Surgem desligados dos partidos e em antagonismo aos partidos, como algo de peculiar e até transcendente ao sistema político.

Mas, em meu entender, quando argumentam em termos “anti-partidos” cometem desde logo uma contradição. Porque, tal como os partidos políticos, existem ou emergem no objetivo da conquista do poder. Este é o móbil da sua existência, porque se organizam para tal. Terão, é certo, pontos divergentes dos partidos, em especial porque o seu despontar, e por esta fase se ficam a maioria das vezes, lhes confere uma aura de inocência e os isenta de vícios e máculas, colhidos da praxis política.

Depois, há outra questão que me intriga. Alguém que é independente a partidos é-o porque ideologicamente não se revê em um qualquer partido. Mas, também pode estar em conformação com a ideologia de um partido, não se revendo, entretanto, na sua estrutura organizativa, ou na sua formulação política e modo de agir em função da ação política.

Seja como for, o que não é concebível é haver quem, sendo o homem um ser pensante, se renegue ideologicamente.  

Partimos pois do princípio de que o homem, dotado de normal capacidade de pensar, tem obviamente a sua ideologia.  

Ora, assim sendo, com a agregação de massas que estes grupos de independentes vieram a captar, naturalmente que surgem como integradores de uma amálgama, muito heterogénea e divergente, de ideologias. Eis a dificuldade de perceber como se podem fazer representar ideologicamente na ação política, partindo deste inquestionável princípio de que “não se concebe nem existe ação política sem ideologia”.

Não pretende esta argumentação, ao entender que os grupos independentes nada acrescentam de mais valioso ao sistema democrático, relevar e branquear a ação dos partidos. Há críticas a fazer e o próprio sistema político revela uma incompletude que se repercute na democracia amolecida que vivemos.

A democracia representativa, por si só, é curta e não responde aos anseios de intervenção política de muitos cidadãos. Por outro lado, os partidos não têm oferecido aos cidadãos instrumentos que os levem a sentir-se participativos e influentes nas deliberações políticas.

 

Uma questão a ser aflorada em próximo comentário. Aguardo a vossa participação.

 

Nuno Espinal


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