publicado por Miradouro de Vila Cova | Quinta-feira, 17 Fevereiro , 2011, 04:19

 

 

Corria o ano de 1971. Enfiado nos confins do Zaire, Angola, como militar, a cumprir os dois anos de guerra colonial, recebi, como presente vindo de Lisboa, um” long playing” dos Credence Clearwater Revival,  que incluía o famoso “have you ever seen the rain?”. Fabulosa aquela batida, a confirmar o que os Credence já significavam para mim: os melhores.

De imediato o “have you ever seen the rain?” foi incluído no repertório do grupo a que pertencia. Mas pertencias a um grupo de música em Angola? - perguntarão os leitores. Passo a explicar. Lembram-se, os da minha idade, do “conjunto académico de João Paulo”, que tinha como vocalista Sérgio Borges? Oriundos da Madeira, celebrizaram-se nomeadamente com temas como “Milena”, “Capri, c’est fini” e “non son degno de te”.  Ora também eles tiveram de cumprir o serviço militar e também alguns deles, quase todos da mesma idade, foram incorporados em contingente militar para Angola. Foram aproveitados para a “psico” e passaram a sua comissão a dar espectáculos para militares. Terminada a comissão, o instrumental que utilizaram ficou à guarda do legítimo proprietário, o Quartel General em Luanda.

Iniciava então o meu batalhão o percurso de comissão em Angola. Na companhia a que pertencia quis o destino que se encontrassem instrumentistas (um viola baixo, um viola solo e rítmico, um teclista) e um vocalista. Faltava alguém para a bateria. Ora acontece que no liceu tinha dado uns “toques” na bateria, sem quaisquer pretensões, mas com algum jeitito para os ritmos. Juntei-me aos outros quatro e lá formámos, com o instrumental vindo de Luanda, o “Kanda 70”. Atuámos “por aqui e por ali” inclusivamente no teatro da hoje “M’Banza Kongo”, em que pusemos a soldadesca em alvoroço precisamente com o tema “have you ever seen the rain?”

Hoje, quando o técnico do Miradouro, Sérgio Brás, pôs na “play list” do Miradouro aquele tema dos “credence” senti um frémito de emoção. Grandes recordações desses tempos e nem resisti. Gesticulei aquela batida, em bateria imaginária. Bem real, contudo, é a comoção que persistirá pela memória de todos aqueles que perderam a vida na guerra das colónias.

Estamos em 2011. Há cinquenta anos ouviam-se, em Luanda, os primeiros tiros da guerra colonial.

 

Nuno Espinal


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