publicado por Miradouro de Vila Cova | Sábado, 06 Novembro , 2010, 09:16

Óleo s/ Tela de Nazaré Pereira: “Frutos Outonais”

 

Tenho o privilégio de morar rodeada de árvores em plena cidade de Lisboa.

Da janela da minha cozinha estendo o braço e quase toco os ramos floridos de ameixeiras, macieiras e cerejeiras.

Quando floridas, regresso à Primavera, ao canto dos pássaros que me enchem de calor o coração e me transportam para surpreendentes paisagens.

No tempo das cerejas, a vontade é cantá-las em todos os tons.

Impossível ficar indiferente ao cromatismo que tem tocado a sensibilidade de músicos, poetas, pintores.

Volto então a ouvir: Yves Montand cantando a perenidade da vida, dos sentimentos, das emoções na belíssima metáfora “Il est bien court le temps des cerises” (É bem curto o tempo das cerejas); Stravinsky na “Sagração da Primavera”; Vivaldi em “As quatro estações”.

Deslumbro-me com Monet em “O rapaz das cerejas” e ainda com belos poemas de que destaco um de José Gomes Ferreira, a lembrar os tempos da falta de liberdade:

 

Quem te pôs na orelha

essas cerejas, pastor?

São de cor vermelha

vai pintá-las de outra cor.

 

Vai pintar os frutos

As amoras, os rosais…

Vai pintar de luto

as papoilas dos trigais.

 

Costuma dizer-se que a conversa é como as cerejas. Retira-se uma e logo quatro ou cinco se enrolam, se ensarilham, num diálogo aberto de sabores, aromas e emoções, prazeres do paladar, mas também prazeres do espírito.

Impossível falar de paladar sem exaltar esses outros frutos anunciadores do Outono  - os dourados dióspiros, as belas castanhas e os saborosos marmelos.

Estes últimos degustam-se cozidos, assados no forno e na gulosa marmelada.

Recordo a que era feita pela minha madrinha Natália. É uma viagem de regresso a Vila Cova, ao acolhedor calor da lareira, aos tachos rescendentes, repletos de marmelos prontos para a sua transfiguração.

Para nós, garotos, era uma maldade o tempo interminável que esperávamos pelo ritual do “lamber dos tachos”.

Actualmente, os calendários pautam-se mais por estes e outros momentos semelhantes. Pelo menos, para mim.

São curtos estes momentos.

Vamos vivê-los no tempo certo, usufruí-los em plenitude, porque, como o tempo dos sonhos, depressa se desvanecem.

 

 


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