publicado por Miradouro de Vila Cova | Quarta-feira, 17 Março , 2010, 07:37

Vi-o de relance numa cidade do Norte, faz pouco mais de um mês. Era ele sem dúvida. Há quanto tempo! Foi tudo tão rápido que nem o consegui abordar.

Depois, já em Vila Cova, confirmei. Naquela cidade era ele de certeza. Tinha emigrado, há mais de quarenta anos, e muito raramente passava em Vila Cova.

Dele guardo as recordações de um episódio que me marcou. Era Natal, no ano de mil novecentos e cinquenta e cinco, para aí. Recebi as costumeiras prendas no sapatinho.  

Ele, menino aí de uns oito anos, fora a casa de meus avós, na manhã do dia de natal, a um recado ordenado pela mãe. Viu maravilhado os brinquedos que eu e meu irmão espalhávamos pelo terraço da casa. Cioso da minha propriedade, evitei que ele os tocasse. Lembro-me bem como tudo se passou. Minha mãe apercebeu-se e logo me advertiu: Vá Nuno Alberto, deixa o menino brincar também. E brincou e brincámos todos felizes. Continuo a recordar-me bem. A certa altura perguntei-lhe. E tu, que brinquedos é que tiveste no sapatinho?

Ele fez um silêncio que se esticou, como se hesitasse a resposta. Depois lá se decidiu. Foi uma maçã, respondeu.

Para mim foi um baque.  

E hoje, embrenhado nos estudos de ciência política, digo a toda a gente que esta foi a minha primeira grande lição do curso. Sobre injustiças sociais.

 

Nuno Espinal

 

 

 

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