publicado por Miradouro de Vila Cova | Sexta-feira, 12 Março , 2010, 10:30

Dispus-me a desvendar um pouco do mistério que, para mim, constituía a Redonda. Sem rumo determinado, penetrei naquele imenso monte por um estradão que à distância acompanha o leito do Alva. Aqui e ali borda-o mesmo e o penhasco que nos acompanha do lado do rio cede lugar a breves espaços de planura, cobertos quase sempre por seixos.  

Às tantas, a surpresa de uma casa, paredes de pedra rolada e de xisto, traçado rústico, aspecto artesanal. Uns canitos achegam-se, com a separação prudente e o ladrar ao estranho. Seduzo-os, lá se aproximam, seguem-se os afagos. Fico deslumbrado com a vista. Em baixo o Alva, um caneiro, o fascínio do momento.

Os cachorros e a roupa estendida indiciam-me casa habitada. E assim é. Uma voz, ao longe, solidária, interpela-me: “Posso ajudar?”

Vou ao seu encontro, aperto de mão, o diálogo. Trata-se do “Ian” um inglês de quarenta e sete anos, que há vinte vive na Redonda. Camionista, decidiu fugir de vez do seu país (é assim que me diz) e fixar-se neste paraíso que as suas andanças ao volante lhe permitiram descobrir.

-Comprei este bocado de terra a um velhote por cem contos, na altura muito dinheiro…

Fala em bom português, ele próprio me diz que se considera já um português. Foi casado é pai, a família visita-o de quando em quando, “no Verão tenho sempre a casa cheia de gente, de amigos, gente que vem de Inglaterra”.

A Vila Cova, ao aglomerado de casas, vai pouco. Curioso o seu comentário: “muito barulho, as pessoas falam muito alto. E não sei porquê chamam-me Ianes”. “Estão com os copos”, diz a rir. “Vêem dois ou mais Ianes em vez de verem só um…”

É um verdadeiro eremita no seu modo de estar, na sua filosofia de vida.

E eu, burguesote instalado em comodismos de que não prescindo, fico atónito com esta adesão, tão minimalista nos confortos, ao convívio puro e duro com a natureza. É verdade que me deslumbro com a natureza. Só que ele, o Ian, vivencia-a na prática.

 

Nuno Espinal

 

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