publicado por Miradouro de Vila Cova | Domingo, 25 Outubro , 2009, 12:43

Salazar bendizia a pobreza, exaltando-a como virtude. “Pobre mas honrado”, era uma máxima enquadrada na moral do regime, enjeitada, contudo, por todos aqueles que verberavam o acantonamento à miséria do grosso da sociedade, vincadamente a sociedade campesina, que sobrevivia, em exclusivo, dos parcos recursos que retirava de uma agricultura de mera e débil sustentabilidade.

É nesta contextura que a imagem do doce “lar” de aldeia é apregoada, com o pai, trabalhador infatigável, pobre, é certo, mas pejado de virtudes e a mãe, zelosa da sua ninhada de filhos, todos eles sob a égide de costumes e moral pregados estes também pelo catolicismo. “Deus, Pátria e a Família”, era um lema.

Entretanto, e em especial nas cidades, existia uma classe média, na sua grande maioria pertencente ao escalão “classe média baixa”, que dispunha de recursos e meios um tanto superiores aos da população que, no campo, miseravelmente se sustentava da agricultura. Era gente desta classe média baixa que no Verão visitava e passava férias nas suas aldeias, mostrando sinais de posse e de rendimentos que, na relativização da penúria nacional, não deixavam de impressionar os aldeãos.

Eram os “lisboetas”, termo porque eram conhecidos aqui, em Vila Cova, e porventura em muitos lugares. Ser “lisboeta” era um estatuto, tinha reconhecimentos de apreço e a máxima do regime “pobre mas honrado” perdia qualquer suporte, nas comparações de condições de vida entre os da aldeia e os da cidade. A emigração para as cidades adquiria assim motivação que viria a ter concretização, e em reporte aos populacionais de Vila Cova, com expressão tímida nos anos 60 e mais acentuada e progressiva ao longo dos anos 70 e 80.

Foi nesta largada demográfica que uma jovem, corriam os anos 60, terá deixado a terra e arranjado trabalho em Lisboa como criada de servir. Ora, logo no seu primeiro ano de férias, saudosa da família e da terra, aí a temos uns dias a passá-los em Vila Cova. Ciosa do seu estatuto de “lisboeta”, decidiu-se em trajá-lo, armando ares de citadina e magicando estratégias que julgava as mais adequadas, uma das quais de total disparate. Ela, que desde cedo sempre trabalhara nas lides do campo, pôs-se um dia a questionar sobre objectos de alfaia agrícola: “Meu pai que coisa é aquela, para que serve?” “É uma roçadora filha, serve para roçar mato. Então não sabes?” “E aquilo ali, meu pai, o que é?” “E ali?” “Ó filha, raios me parta, aquilo é um ancinho, ali é uma foice…”

A patetice da jovem foi gozada e ridicularizada pelo povinho. E com razão. Transpondo o velho provérbio: “Quem das suas coisas desdenha…”

Mas, retomando a grande máxima de Salazar pode concluir-se que a honradez, seja ou não de gente pobre e em qualquer circunstância, até é coisa defensável. Mas, a pobreza?…

 

Nuno Espinal       

 

 

 


publicado por Miradouro de Vila Cova | Sábado, 24 Outubro , 2009, 20:00

Amanhã o Vilacovense recebe, no seu campo, a equipa de Santo António do Alva, em encontro que marcará o início da Taça do Inatel da época 2009/2010. O encontro, que está marcado para as 15 horas, está a ser aguardado com grande expectativa, já que a equipa de Vila Cova tem demonstrado, nos jogos que realizou de pré-época, possuir um conjunto de valores à altura de realizar um bom campeonato.

 


publicado por Miradouro de Vila Cova | Sexta-feira, 23 Outubro , 2009, 18:08

Recentemente li, de Piaget, a importância que o jogo tem para a criança. O jogo, a brincadeira, e a sua íntima ligação ao desenvolvimento da própria inteligência. Diz Piaget que, desde bebé até aos dois anos, a criança, nas suas brincadeiras, começa a aprender a controlar e coordenar os movimentos. São as brincadeiras de domínio. Entre os dois e os 6 a 7 anos é o jogo do fingir, do faz de conta. A criança finge que é isto ou aquilo, imagina ser outra coisa ou pessoa. São as brincadeiras simbólicas. Em fase posterior do crescimento entra nos jogos com regras. “Vou-me esconder. Tens de contar até cem. Só depois é que podes abrir os olhos. Não vale fazer batota”. São as brincadeiras com regras.

Ora, neste caminhar das fases do crescimento fui levado à recordação de uma cena passada em Vila Cova, no sitio do Adro, com a Matriz por fundo, teria para aí os meus 6 anos. Detive-me, pois, nesta parte do livro que versava as brincadeiras com regras. E porquê?

É que, na viagem ao passado a que a memória me levou, vejo-me atrás de uma bola com outras crianças, decerto a maioria um ou outro anito mais velha, e um senhor, de batina preta, com um apito, a apitar…a apitar…a apitar. As “coisas” que as apitadelas denunciavam disso não tenho na memória qualquer registo. O que eu registei é que o “Senhor do Apito” era nem mais nem menos o Sr. Prior, o bondoso Padre Januário Lourenço dos Santos.

Foi porventura este mero jogo com uma bola de futebol um primeiro, ou dos primeiros momentos, que no curso do meu crescimento e aprendizagem me terá sinalizado que há regras…as tais brincadeiras com regras.

E lá estava o Sr. Prior, atitude amiga e solidária, a fixar-se na recordação mais antiga que dele guardo.

E será assim, amigo e solidário, que o hei-de sempre recordar.

 

 

Nuno Espinal

 


publicado por Miradouro de Vila Cova | Quinta-feira, 22 Outubro , 2009, 12:42

Isto ontem animou-se. Em comentários, um máximo atingido.

E tudo pelo insulto de um comentário forjado na inveja (é o que deduzimos) e manobrado na covardia do anonimato.

Eis, pois, a politiqueirice na sua expressão mais sórdida e provinciana.

Como já ouvi a alguém, é caso para dizer: politiqueirce de merda, de miolos e sangue no raciocínio, de uma cabeça podre.

 

Pois é! Mas há quem me diga: estás a dar importância a um episódio ridículo e menor. De facto, hesitei antes de o escrever. Mas a verdade é esta. Sempre acreditei na política. Porque acredito nas ideias e na divergência de ideias como motor da inteligência, do progresso, como imprescindíveis para a conquista do bem-estar.

 

Evidenciemos, assim, a diferença entre políticos e politiqueiros. O político, no seu sentido mais abrangente, tem uma escala de valores. A sua preocupação será em primeiro lugar, mas também em segundo, terceiro, quarto lugares e por muitos mais patamares, o bem da comunidade, o bem das pessoas. Como não devemos descurar a nossa condição humana não há que negligenciar os próprios interesses pessoais dos políticos. Mas, estes ser-lhe-ão sempre os últimos atendíveis. Com o politiqueiro tudo será diferente. A escala de valores inverte-se na íntegra. Os seus desígnios orientar-se-ão primeiro, e sempre, por interesses e ambições pessoais.

 

O comentário que ontem veio à estampa no Miradouro é paradigmático. De alguém com mentalidade politiqueira. As frustrações pessoais descarrega-as no ataque público que faz a outros. Sem contemplações, com ataques à imagem e honra não só de um indivíduo mas também de uma Instituição. E o que mais me espanta é o ataque a esta última.

 

Que desprezível!        

 

 

Nuno Espinal

 


publicado por Miradouro de Vila Cova | Quarta-feira, 21 Outubro , 2009, 12:56

Atrai-me este cinzento de Outono. O preto e branco das coisas e, por sinestesia, um transporte ao passado, a recordações, a muitas memórias e sentimentos.

De quando em quando uma nesga de sol, como um belisque, que me acorda desta letargia, desta apatia, assumo mesmo, piegas.

Mas, que fazer? Não há volta a dar. De quando em quando é assim.

E lá está,  neste reviver o passado, corre a década de cinquenta, um grupo de homens à Meda e as grossas bátegas a contrariá-los nas suas idas à fazenda.

E lá em baixo o Alva, a engrossar o caudal, de águas purinhas, purinhas…

Nesses tempos era assim.

 

Nuno Espinal

 


publicado por Miradouro de Vila Cova | Terça-feira, 20 Outubro , 2009, 13:52

Finalmente a chuva.

 

 Já cá fazia falta, diz alguém que se prepara, de tractor, para se dirigir a uma fazenda sua. E que caia e caia bem! – acrescenta.

 

Mais adiante uma jovem, vestimenta toda à moda, comenta. Mas para quê a chuva. Só chateia. Faz falta à agricultura, aqui em Vila Cova? Mas se, aqui bem perto, temos tudo nos supermercados!

 

Sintomáticos sinais dos tempos.

 

Nuno Espinal

 

 

 

 


publicado por Miradouro de Vila Cova | Segunda-feira, 19 Outubro , 2009, 00:12

Na sequência do comentário que surgiu no “post” com o título “Parabéns Drª Cidalina Lourenço”, assinado, este comentário, por um tal “Jonas”, as empregadas da Santa Casa da Misericórdia de Vila Cova de Alva julgam-se no direito de fazer um pequeno apontamento ao mesmo, uma vez que este em nada corresponde à verdade.

Felizmente todas nós exprimimos opiniões à nossa Mesa Administrativa, sem que tenha, em tempo algum, existido qualquer tipo de represália.

Não sentimos necessidade de exigir direitos, porque estes nunca nos foram negados.

 Aliás, gostávamos ainda de referir que quaisquer situações que nos surjam, a que por vezes, até, nem de direitos dispomos, têm-nos sido autorizadas.

Face ao exposto, solicitamos ao Sr. ou Sr.ª que redigiu o comentário, o qual nos causou total repulsa, que não fale em nome das empregadas desta Santa Casa, porque não nos identificamos com as palavras expressas.

Por fim, fazemos questão em mencionar que estamos unidas à nossa Mesa Administrativa para continuar a prestar serviços à comunidade, com qualidade, eficiência e empenho e, fundamentalmente, sem medos, pois em nossa “casa”, vivemos em democracia.

As empregadas da Santa Casa da Misericórdia de Vila Cova de Alva:

Andreia (técnica), Manuela, Hortense, Cláudia, Lisete, Júlia, Lucília, Adelaide e Joana.

 


publicado por Miradouro de Vila Cova | Domingo, 18 Outubro , 2009, 23:40

Departamento de Cultura

 

INSCRIÇÕES A DECORRER            

Esperamos por si!...

Visitas-guiadas em Coimbra

 

Irmã Lúcia

Outubro | 20

Novembro | 17

Dezembro | 29

 

Periodicidade mensal: Terça-feira

Horário: 15h00

Necessário inscrição: Telef. nº239702630 (Casa Municipal da Cultura)

Acesso: 1,00€ (público em geral); 0,50€ (estudantes até ao 12º ano)*

Público-alvo: Geral e Escolar (todos os níveis de ensino)

Mínimo de participantes: 6

Máximo de participantes: 20

Ponto de encontro: Entrada do Memorial Irmã Lúcia (Rua Marnoco e Sousa)

Informações: Telef. nº239702630 (Casa Municipal da Cultura)

* O pagamento reverte para o Carmelo de Santa Teresa/Memorial Irmã Lúcia.

 

Coimbra – um outro olhar

Outubro | 21

Novembro | 4, 18

Dezembro | 16, 30

 

Periodicidade quinzenal: Quarta-feira

Horário: 15h00

Necessário inscrição: Telef. nº239702630 (Casa Municipal da Cultura)

Acesso: Gratuito

Público-alvo: Geral

Mínimo de participantes: 6

Máximo de participantes: 35

Ponto de encontro: Junto à entrada do Museu Nacional de Machado de Castro (Largo Dr. José Rodrigues)

Informações: Telef. nº239702630 (Casa Municipal da Cultura)

 

Mosteiro de Santa Maria de Celas

 

Outubro | 27

Novembro | 10, 24

Dezembro | 22

 

 

Periodicidade quinzenal: Terça-feira

Horário: 15h00

Necessário inscrição: Telef. nº239702630 (Casa Municipal da Cultura, Rua Pedro Monteiro)

Acesso: 1,00€ (público em geral); 0,50€ (estudantes até ao 12º ano)

Público-alvo: Geral e Escolar (todos os níveis de ensino)

Mínimo de participantes: 6

Máximo de participantes: 35

Ponto de encontro: Entrada do Mosteiro de Celas

Informações: Telef. nº239702630 (Casa Municipal da Cultura)

 

Panteão Nacional

 

Outubro | 21

Novembro | 4, 18

Dezembro | 2, 16, 30

 

 

Periodicidade quinzenal: Quarta-feira

Horário: 15h00

Necessário Inscrição: Telef. nº239702630 (Casa Municipal da Cultura, Rua Pedro Monteiro)

Acesso: Gratuito

Público-alvo: Geral e Escolar (todos os níveis de ensino)

Mínimo de participantes: 6

Máximo de participantes: 25

Ponto de encontro: Adro da Igreja de Santa Cruz (Praça 8 de Maio)

Informações: Telef. nº239702630 (Casa Municipal da Cultura)

 

Rainha Santa Isabel

Novembro | 5

Dezembro | 17

 

Periodicidade mensal: Quinta-feira

Horário: 15h00

Necessário inscrição: Telef. nº239702630 (Casa Municipal da Cultura, Rua Pedro Monteiro)

Acesso: Gratuito

Público-alvo: Geral e Escolar (todos os níveis de ensino)

Mínimo de participantes: 6

Máximo de participantes: 35

Ponto de encontro: Adro da Igreja (Terreiro)

Informações: Telef. nº239702630 (Casa Municipal da Cultura)

 

 

 

Santo António

 

Outubro | 15

Novembro | 12

Dezembro | 24

 

 

Periodicidade mensal: Quinta-feira

Horário: 15h00

Necessário inscrição: Telef. nº239702630 (Casa Municipal da Cultura, Rua Pedro Monteiro)

Acesso: Gratuito

Público-alvo: Geral e Escolar (todos os níveis de ensino)

Mínimo de participantes: 6

Máximo de participantes: 35

Ponto de encontro: Escadaria da Igreja de Santo António dos Olivais

Informações: Telef. nº239702630 (Casa Municipal da Cultura)

 


publicado por Miradouro de Vila Cova | Domingo, 18 Outubro , 2009, 14:24

 

 

Realizou-se ontem, no Piodão, o IV Capítulo da Confraria Gastronómica do Bucho de Arganil. Longe do brilho da Capítulo realizado no ano transacto em Vila Cova, não deixou contudo, este acontecimento, de constituir uma jornada de convívio entre confrades residentes no concelho e vindos de outras partes do país.

Como destaque deste IV Capítulo refira-se a entronização, ou seja a admissão como novos membros da Confraria, de três vilacovenses: Drª Cidalina Lourenço Antunes, Presidente recentemente eleita da Junta de Freguesia de Vila Cova, Dª Elizabete Lourenço Ribeiro e Dª Isabel Lourenço Martinho.

Uma nota negativa à organização: o excesso de discursos que antecederam a cerimónia de entronização, alguns demasiado longos e que atrasaram a hora do almoço, que só foi servido cerca das 16 horas. A tal ponto que o orador oficial deste IV Capítulo, professor Manuel Fernandes, foi forçado a reduzir substancialmente o tempo da sua intervenção, com naturais prejuízos para o que de substancial nos poderia ter dito sobre a história do Piodão..

Não deixou, contudo, o professor Manuel Fernandes, logo no início da sua alocução, de sugerir que o nome da Confraria fosse alterado, “com intenção de maior abrangência”, para Confraria Gastronómica dos Buchos do Concelho de Arganil, com o subentendimento da existência dos buchos de Vila Cova e Folques.

Um breve comentário sobre o “Grupo Cantares do Alva e Alvor”: Muito bons.

 

Nuno Espinal

 

 

 

 


publicado por Miradouro de Vila Cova | Domingo, 18 Outubro , 2009, 07:32

A propósito das comemorações das aparições em Fátima e da mobilização que estas cerimónias provocam nos portugueses, recordo um episódio, já lá vão vão 54 anos. Se hoje é fácil uma deslocação ao Santuário, vinda de qualquer ponto do país, derivada dos inúmeros IP’s, IC’s e auto-estradas que ilustram os itinerários de Portugal, naquele tempo tal não acontecia. Qualquer deslocação, mesmo em carro próprio, não deixava de ser, nalguns casos, uma autêntica e penosa odisseia. E se fosse em comboio ou camioneta, nem se fala. Claro está que, para além dos elementos rodoviários não terem a fiabilidade que hoje se lhes reconhece, as estradas contribuíam para que uns meros 200 Km se revestissem de uma autêntica e inesperada aventura. Quais IP’s IC’s ou diabo que os valha.

Pois é, já lá vai mais de meio século. Alguns Vilacovenses resolveram no distante ano de 1955 organizar uma ida a Fátima por alturas das comemorações do 13 de Maio. Deitadas mãos à obra, camioneta alugada, deu-se a partida de Vila Cova no dia 12 pelas sete horas da manhã, já que era necessário aproveitar bem o dia. Oportunidades destas não se podiam desperdiçar, não só pela raridade dos passeios como também pela despesa acrescida que tal situação acarretava para a maioria das bolsas. Pessoal sentado nos seus lugares, a preencher a total lotação da camioneta, aí íamos nós, estrada fora, em direcção a Fátima. Creio que durante duas ou três horas tudo se passou na maior das normalidades. Passados esses primeiros momentos de total entusiasmo, começaram então as contrariedades. Um pneu a estoirar e a provocar algum contido susto pelo estrondo que originou. Pessoal fora da camioneta, procede-se a substituição do mesmo ainda que o sobresselente não aparentasse melhores condições. Tarefa árdua esta, já que os meios disponíveis para o efeito não ajudavam por aí além. Perdida cerca de uma hora, retoma-se a viagem já com os planos alterados com vista ao local do almoço. Mas, enfim, desde que se encontrassem umas sombras aprazíveis, aí se montaria o piquenique e se degustariam as iguarias que eram  apanágio destas situações especiais. Por ser o mês de Maio, o calor já começava a dar os primeiros sinais. O conforto do veículo deixava muito a desejar (imaginem as camionetas da época) e a vontade de chegar a Fátima já causava alguma ansiedade. Estrada fora, novamente um estrondo. Novamente um pneu furado. Já com o sobresselente em uso e não havendo meio próprio de o substituir, apelou-se a uma outra excursão para que emprestassem uma roda compatível de forma a podermos prosseguir. Este forçado interregno demorou duas ou três horas, mas tendo aparecido um caridoso motorista, lá se fez a respectiva substituição. A noite aproximava-se a passos largos e, se não houvesse mais nenhuma contrariedade, chegaríamos a tempo da procissão das velas. Recomeçado o percurso, já só se pensava em chegar ao destino. A ansiedade era mais que muita e a desilusão começava a deixar marcas. Uma jornada que à partida prometia ser de alegria e entusiasmo, dava lugar a alguma frustração. A noite aproximava-se e os quilómetros a percorrer não provocavam preocupação de monta. Eis senão quando, já quase com Fátima à vista, novo estrondo, novo pneu esfrangalhado. Nesta altura a excursão tomava foros de odisseia. E agora? O que fazer? As saídas para esta nova emergência já se afiguravam como inultrapassáveis. Aproximava-se a hora da procissão das velas e nós, numa qualquer estrada sobranceira a Fátima, víamos de longe o clarão das velas no Santuário. Não havia já hipótese de chegarmos a tempo. Esvaía-se qualquer centelha de entusiasmo. Alguém, num desabafo a propósito, dizia que era um inferno. Na inocência dos meus poucos anos, e aproveitando a deixa, referia-me ao clarão provocado pelas velas no Santuário para dizer que parecia o fogo do inferno, provocando uma  contida reprovação nalguns dos peregrinos. Só não levei um tabefe da minha avó porque a circunstância era já de si tão caricata e frustrante que lhe reprimiu a ira. Ali passámos a noite dormitando nos assentos que ocupáramos durante a viagem. Depois, pela manhã, lá apareceu uma outra camioneta que nos levou a Fátima. A partir daqui foi tudo tão banal que a memória se perdeu dos pormenores. Só me lembro que, já nas imediações do Santuário, alguém de nós se perdeu e, no emaranhado da multidão gritava a plenos pulmões…”Ó Vila Cova…” Alguém, condoída da pobre senhora perdida terá perguntado. “oh mulherzinha de Deus, vossemecê donde é que é?”. “Sou da terra da música”, foi a resposta.

Odisseias que há meio século atrás não eram assim tão raras.

Abraços.

Quim Espiñal

 


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