
Salazar bendizia a pobreza, exaltando-a como virtude. “Pobre mas honrado”, era uma máxima enquadrada na moral do regime, enjeitada, contudo, por todos aqueles que verberavam o acantonamento à miséria do grosso da sociedade, vincadamente a sociedade campesina, que sobrevivia, em exclusivo, dos parcos recursos que retirava de uma agricultura de mera e débil sustentabilidade.
É nesta contextura que a imagem do doce “lar” de aldeia é apregoada, com o pai, trabalhador infatigável, pobre, é certo, mas pejado de virtudes e a mãe, zelosa da sua ninhada de filhos, todos eles sob a égide de costumes e moral pregados estes também pelo catolicismo. “Deus, Pátria e a Família”, era um lema.
Entretanto, e em especial nas cidades, existia uma classe média, na sua grande maioria pertencente ao escalão “classe média baixa”, que dispunha de recursos e meios um tanto superiores aos da população que, no campo, miseravelmente se sustentava da agricultura. Era gente desta classe média baixa que no Verão visitava e passava férias nas suas aldeias, mostrando sinais de posse e de rendimentos que, na relativização da penúria nacional, não deixavam de impressionar os aldeãos.
Eram os “lisboetas”, termo porque eram conhecidos aqui, em Vila Cova, e porventura em muitos lugares. Ser “lisboeta” era um estatuto, tinha reconhecimentos de apreço e a máxima do regime “pobre mas honrado” perdia qualquer suporte, nas comparações de condições de vida entre os da aldeia e os da cidade. A emigração para as cidades adquiria assim motivação que viria a ter concretização, e em reporte aos populacionais de Vila Cova, com expressão tímida nos anos 60 e mais acentuada e progressiva ao longo dos anos 70 e 80.
Foi nesta largada demográfica que uma jovem, corriam os anos 60, terá deixado a terra e arranjado trabalho em Lisboa como criada de servir. Ora, logo no seu primeiro ano de férias, saudosa da família e da terra, aí a temos uns dias a passá-los em Vila Cova. Ciosa do seu estatuto de “lisboeta”, decidiu-se em trajá-lo, armando ares de citadina e magicando estratégias que julgava as mais adequadas, uma das quais de total disparate. Ela, que desde cedo sempre trabalhara nas lides do campo, pôs-se um dia a questionar sobre objectos de alfaia agrícola: “Meu pai que coisa é aquela, para que serve?” “É uma roçadora filha, serve para roçar mato. Então não sabes?” “E aquilo ali, meu pai, o que é?” “E ali?” “Ó filha, raios me parta, aquilo é um ancinho, ali é uma foice…”
A patetice da jovem foi gozada e ridicularizada pelo povinho. E com razão. Transpondo o velho provérbio: “Quem das suas coisas desdenha…”
Mas, retomando a grande máxima de Salazar pode concluir-se que a honradez, seja ou não de gente pobre e em qualquer circunstância, até é coisa defensável. Mas, a pobreza?…
Nuno Espinal