publicado por Miradouro de Vila Cova | Quinta-feira, 03 Setembro , 2009, 08:24

Estávamos nos anos cinquenta. Vila Cova era, então, bem diferente.

Uma população de 400 a 500 pessoas, fechada, muito ensimesmada, afeita aos avoengos valores da época, os que a moral vitoriana consagrava, o império do respeito, num ramerrame quotidiano em que a agricultura dominava e ocupava a quase totalidade da força de trabalho.

Na pacatez e vivência costumeira do dia a dia, do ano a ano, surgiu, certa vez, uma esquisita “coisa”, nunca antes vista, que despertou o entusiasmo dos mais jovens e fez desconfiar a respeitada patriarquia da aldeia.

A tal coisa era afinal, nem mais, nem menos que uma mera “mesa de ping-pong”.

Dedicou-se a rapaziada, os jovens da aldeia, à prática e usufruição do correspondente jogo. Ora, após uns joguitos, umas “pinguepongadas”, os mais hábeis começaram logo a sobressair, a merecer a admiração dos outros.

João (nome fictício) era um dos modelos, era mesmo o melhor. Entusiasmou-se. E, todos os momentos em que, aos afazeres, se escapulia, lá ia ele, veloz que nem uma seta, bem direitinho ao obcecado estádio da sua glória.

Soube o pai, o Ti António, desta sua impertinência. Entrou em desvario. ” O quê, pode lá ser? Eu dou-lhe a parvoeira! Vícios? Era só o que me faltava! Deixa lá que já vais saber…

Pensou-o e nem perdeu muito tempo. Certa vez, irrompeu, furibundo, na improvisada sala de jogo e logo, ali logo, apanhou o João em pública exibição das proezas. A intempestividade da investida foi de tal ordem que em resposta obteve desde logo um total silêncio e um percebido medo. A raquete de João estatelou-se sem apelo. A bola, a pequena bola branca, até parece que, de medo, se pisgou lá bem para os fundos.

Ti António dirigiu-se, encarniçado de raiva, ao rapaz. Agarrou-o, uns vigorosos abanões, os colarinhos da camisa esfarelada de António numa fona e, fulminante, vociferou-lhe:

“Ah malandro. Já para casa! Ai de ti, ai de ti se te apanho aqui outra vez! Ai de ti! Ficas proibido, ouviste bem, ficas proibido de jogares esta coisa maldita do…pim pam pum.

 

 

Nuno Espinal

 

 


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