publicado por Miradouro de Vila Cova | Sábado, 28 Março , 2009, 11:19

 Quinzinho

 

 

Amiúde surgem-me recordações dos tempos da “malta”…

Umas mais irreverentes, outras de acento a prevalecer o cómico, outras de feição mais afectiva ou, ainda, em misto de tudo isto, mescla de sorriso, gargalhada e “lágrimita” ao canto do olho…

Esta, por exemplo.

Envolve o meu avô, e eis aqui, para mim, o lado sentimentalão da “estória”. Chamavam-lhe, por deferência e carinho, o Quinzinho, e sempre foi este o tratamento, fosse em criança, ou pela vida ou na própria velhice. Era um homem bom, cordato, discreto, tolerante.

Ora a “malta” tinha por hábito, de quando em quando, organizar umas patuscadas. Umas "legalmente" organizadas, com conhecimento, aquiescência e oferendas da família. Mas essas, muito raras, como que sabiam a pouco. As interessantes, as de supremo gozo, eram as concretizadas à sorrelfa, com géneros pilhados, indistintamente das suas natureza e proveniência. E quanto mais habilidade e perícia para a pilhagem melhor nos saberia o pitéu.

Foi assim que um dia me coube, na tarefa do surripianço, a “palmada” ao imprescindível tinto. Não me fiz de modas. Na adega da casa (loja como é uso aqui na zona designar-se) havia uns pipos com um vinho de estalo. À hora, que me pareceu mais adequada, entrei na loja e, com os maiores cuidados, enchi um garrafão de cinco litros, que logo ali já me sabia como o mais divinal néctar dos deuses. Troféu em guarda e eis-me à porta da loja a espiolhar vistas, a recatar-me de percalços. Caminho livre, pus-me em marcha, ar triunfante, feliz da vida, tudo a correr de feição. Foi então que me surgiu, a meio da calçada, vindo do chafariz de S. Sebastião, o meu avô. Fiquei estarrecido, mesmo sem jeito. E agora? Lá me tentei recompor e atabalhoadamente escondi, como pude, o garrafão atrás das costas. E a pergunta fatalmente veio.

-O que é que levas aí, rapaz?

 -Nada avô…é a telefonia de pilhas…vou ouvir música c’a malta…

-Ah, é a telefonia…já vi. E essa é das tais que dá uma música que vos põe todos a cantar num instante. Vai-te lá embora e tenham juízo. E olha, que a tua avó não o saiba!...

 

Era assim o meu avô. E deixem-me que lhe brinde esta “estorieta”. Postumamente, com a tal lagrimazita ao canto do olho.

 

Nuno Espinal

 


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