publicado por Miradouro de Vila Cova | Quinta-feira, 26 Fevereiro , 2009, 07:32

Há quem lhes chame “Jornal de Maldizer”. Ou, ainda, “Jornal de Carnaval”. Poderiam até ter, entre muitos, outro título, rebuscando-se-lhes a definição: “Quadras Populares Satírico/Burlescas”, por exemplo. Chame-se-lhes o que se quiser, é bem certo que as quadras são, nos carnavais de hoje, elemento já imprescindível.

Quando vêm à Praça Pública é ver as pessoas com avidez a interpretá-las, em gozo patente, gargalhado até. Podem ter o defeito de, por vezes, serem excessivamente acintosas, cruéis, maldosas e, sob a capa anónima, violadoras de espaços íntimos e de foro pessoal. Mas há um mérito que se lhes reconhece: são uma fonte de expressão popular, num género que é típico e exclusivo do povo português, com raízes profundas na cultura popular e integrantes, como elemento, da nossa cultura base.

 

Vamos a partir de hoje publicar algumas dessas quadras que, no Carnaval de 2009, correram de mão em mão. Nem sempre, ou quase nunca, respeitam as duas regras básicas que literariamente as enquadram: rima e métrica. Mas demos-lhes esse desconto e preocupemo-nos antes com o seu essencial objectivo, que tem no sentido crítico e satírico a sua principal finalidade.

 

Nuno Espinal

 

 

 

 

(Sobre o Cepo de Natal):

 

Nem na noite de Natal,

O cepo se viu arder.

Acaba-se a tradição,

Sem ninguém para o fazer.

 

Os nossos jovens de agora

Não precisam de aquecer.

Na praça o cepo não ardeu,

Elas fazem-nos ferver.

 

 

(Sobre a Herança “José da Silva”):

 

Certa herança foi doada,

A querida instituição.

Todos deram menos um,

Pois queria o seu quinhão.

 

Por certo não fica rico,

Com a parte que lhe toca.

Esperemos que com tanta ganância,

A esperteza não lhe saia torta.

 

 

(Sobre um ralhete injusto dado a cães pelo dono que se levantou da cama altas horas da noite):

 

 

Era tanto o alarido,

De tantos cães a ladrar.

Já farto de os ouvir,

O dono os mandou calar.

 

Os bichos tinham razão,

Pois a raposa atacou.

Sete galinhas e um galo,

A malandra papou.

 

 

(Sobre umas senhoras “habituées” da Missa)

 

Tão devotas elas são,

À missa vão quase sempre.

Que não seja só por elas,

Mas que rezem por toda a gente.

 

Distraídas como estavam,

Entretidas a conversar.

Estava na hora da missa,

O padre teve de as chamar.

 

(continua)

 


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