publicado por Miradouro de Vila Cova | Sábado, 08 Novembro , 2008, 00:34

 

Pouco sei sobre quem foi Antunes da Silva. Apenas que era jornalista e que um dia, corria o ano de 1955, veio passar uns dias de férias a Vila Cova. A que pretexto e quem lhe deu guarida, desconheço por completo. O certo é que se apaixonou por Vila Cova e ganhou amigos (os irmãos Benjamim e Abílio Leitão e ainda Camilo Ramos) com quem acamaradou e conviveu, em tertúlia e saudável boémia.
Da sua breve passagem escreveu uma crónica que foi dividida e publicada em três edições da Comarca de Arganil. Desta crónica, um tanto à guisa de diário, respigamos, pela sua graça, este breve apontamento em que dedica grandes loas à…aguardente. E não só.
 
“A aguardente de Vila Cova do Alva é uma maravilha da Natureza, gerada em alambiques primitivos, escorrendo cristalinamente de uma frágil caninha e, não só tem um paladar imperial, como cai muito bem no estômago e dispõe um cristão para aventuras de amor e ancoragens novas…Bebi dois cálices (mas que cálices, caramba!), muito à sorrelfa, não fossem os circunstantes apostar que a aguardente de bagaço, do puro, do autêntico bagaço das uvas beiroas, era um motivo derradeiro para vendermos a alma ao Diabo…Bebi dois cálices e fiquei sentado num banco, a olhar o fio de prata escorrendo para um jarro, a ouvir as conversas dos homens sobre a novidade das batatas e o riso contagiante das mulheres, vermelhas, as pupilas inquietas brilhando à luz forte das lâmpadas.
Se não fosse a minha enorme força de vontade, quantos mais cálices não beberia…Quantas mais vezes não faria o simples gesto de pôr a cabeça para trás e emborcar o precioso líquido, pronunciando ao mesmo tempo o velho e chocarreiro «ah!» dos felizes mortais. Mas o fígado é juiz e o coração carrasco. Alto lá. Que se rissem as mulheres, satisfeitas com a paródia inopinada; que conversassem os homens ganhando palpites e que a aguardente clara, transparente, salvadora, de Vila Cova, escorresse vagarosamente no jarro para reserva abençoada de uma terra que, além dos pinhais e das cachoeiras do seu rio brincalhão, tem o mistério da vida na linguagem dos seus líquidos caseiros e a mais bela hospitalidade na alma beiroa dos seus filhos.
No dia seguinte, lá estávamos pela manhã na Fonte dos Passarinhos, para beber a água milagrosa que cura males de fígado - e de peito…”
 
 
Nuno Espinal
 

 


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