publicado por Miradouro de Vila Cova | Quinta-feira, 06 Dezembro , 2007, 00:19

Ainda hoje há quem lhe chame o Beco da Janota. Beco entende-se, mas da Janota porquê? Ora, na rua que antecede do lado direito a Praça, para quem vem da Matriz, viveu uma mulher, Maria da Glória, que tinha por alcunha a “Janota”. Janota porque era, nos seus tempos de mocidade, rapariga elegante, alta, esguia e bonita. Mas progrediu-lhe a idade e com o subir dos anos tornou-se peculiarmente estranha. A testemunhá-lo está a história que publicamos. Assinada por um tal “Trovão”, e que foi publicada na “Comarca de Arganil” em Agosto de 1921, revela uma escrita escorreita, a que não falta humor e um certo criticismo,  típico de uma moral e dos “bons costumes” de então.
Sobre quem foi o “Trovão” ainda muito pouco sabemos. Apenas que foi escriba, entre 1920 e 1924, na Comarca, de acontecimentos ocorridos em Vila Cova. Estamos a indagar sobre a sua identidade, enquanto outros textos seus iremos, entretanto, pela curiosidade e interesse que revelam, publicando.
Para já aqui fica o da Janota.
 
“Em Vila Cova são encontradas a uma mendiga cerca de 220$00 em dinheiro e fazendas no valor de 500$00
 
Vila Cova – De tempos a tempos costumam noticiar os jornais a morte de pessoas pobres a quem são encontradas, depois de partirem desta para melhor, somas fabulosas de dinheiro. Pois há dias deu-se nesta vila um caso semelhante, com a diferença de que a criatura em questão ainda é viva.
Passamos a contar o caso: Habita nesta vila, de onde é natural, Maria da Glória, mais conhecida pela alcunha da “Janota”, que conta cerca de 60 anos. Vivendo só, tem levado a vida a trabalhar, mas a maior parte do tempo na mendicidade, aproveitando o tempo em que não se utiliza de nenhuma destas ocupações para ir à lenha pelos pinhais, tendo conseguido fazer da sua casa um recheado depósito deste artigo. Desde há muito tempo que a vizinhança a aconselhava a que tirasse a lenha que lá tinha arrumada, já porque se temia de algum incêndio, já porque desta forma ela viveria com mais limpeza e asseio, pois, podemos dizer sem receio de errar que naquela casa se albergava a “Pobreza, Miséria e Companhia Lda.”.
Como nunca conseguissem que ela seguisse os conselhos que lhe davam, resolveram queixar-se ao regedor, Sr. Abel Mendes Ferrão, o qual por várias vezes a intimou a que tirasse de casa algumas lenhas, mas sem conseguir que ela cumprisse a intimação que lhe fazia. Como há dias se tivesse dado um princípio de incêndio em casa do Sr. Manuel Leal, voltaram os vizinhos da dita “Janota” a insistir com o regedor para que a obrigasse a tirar da casa a lenha, alegando que se ali se desse um incêndio seria inteiramente impossível extingui-lo.
Com efeito, no dia 20 p.p., o Sr.Abel Ferrão intimou-a novamente a que tirasse a lenha e, como ela se recusasse, viu-se na necessidade de, juntamente com algumas pessoas que chamou para tal fim, o fazer pessoalmente. Pois senhores: além da lenha que, segundo o cálculo que fizeram, chegava para queimar regularmente durante o “curto espaço” de dez a doze anos, foi-lhe encontrada, embrulhada em trapos velhos e sepultada na lenha, uma quantia muito razoável de dinheiro, ou fossem cento e vinte e sete escudos em prata, um saco com oitenta e tantos escudos em cobre, quinze escudos em papel, não contando ainda um fardo de fazendas e panos crus, que calculavam valer mais de quinhentos escudos.
Ora aí está, caros leitores, como uma criatura que mendigava uma esmola, não só em Vila Cova como nas terras circunvizinhas, enrolava esta pobre gente chamando-se pobre. Sempre aparece cada ratona! – Trovão
 
 
 
Nuno Espinal
(Um obrigado às Dras. Palmira Barreiras, Sandra Cruz e Tanya Ribeiro pela colaboração)  

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