publicado por Miradouro de Vila Cova | Quarta-feira, 14 Novembro , 2007, 23:55

Da esquerda para a direita:
1º plano: Manuel Fernandes, Quim Espinal, Zé Alves, Gabriel de Almeida (Toneca) e Antero Madeira;
2º plano: Abílio Caldeira, Filomena Fortes, Fernando Vicente, Amélia Caetano, Nuno Espinal, Alberto, “Juca”, Manuel António e Isabel Madeira
(Foto de 1964)
 
 
 
Das virtudes do Miradouro, aceitando que as tenha, uma, das que mais sobressai, é a de ter feito emergir recordações, que na expressão feliz da Drª Zita, estavam adormecidas em “cofre de memórias”. Recordações que libertam afectos, afectos guardados silenciosamente anos e anos, soltos agora nesta explosão de evocações e reencontros. Uma mera fotografia, que seja, ou um texto a contar estórias, estórias passadas de um passado partilhado. Vila Cova surge sempre como espaço, mas mais do que espaço como um tempo, sejam anos sessenta, sejam anos setenta, sejam outros quaisquer anos do tempo.
Os “mails” trocados por Antero Madeira e Quim Espinal dizem desse espaço e tempo. Quis o acaso que a eles tivesse acesso. Com as respectivas autorizações aqui os publico, a comprovarem memórias, reencontros e afectos.
Nuno Espinal
 
Meu Caro Quim
 
A nossa memória é muito traiçoeira, mas desta vez parece-me que não erro se disser que há 5 anos que não nos vemos. Até então foram alguns 30/35 anos. O tempo é implacável.
Vi no "Miradouro" de hoje a vossa foto de Família e não posso deixar passar em branco este facto para: 1º-deixar um grande Abraço a todos vós, 2º-agradecer-te o facto de não te esqueceres de todos nós que marcámos, estou certo, uma época na "nossa Vila Cova", 3º-manifestar-te a grande alegria que terei em, brevemente, podermos reviver os nossos bons velhos tempos e fazermos também a nossa foto de "família".
Mais um grande abraço deste teu amigo
Antero Madeira. (6 de Novembro)
 
 
 
Meu Caro Antero
 
Só hoje, porque sofri uma intervenção cirúrgica que me afastou destas andanças dos “ mails”, tive oportunidade de ler o teu Abraço, o que me deixou bastante emocionado.
Pois é. O miradouro tem, para além de outras, a virtude de nos aproximar e revivermo-nos passados tantos anos.
De facto foi mais ou menos há cinco anos que nos encontrámos na Digueifel, na Quinta do Zé Carvalho, num encontro tão fugaz que não deu para preencher esta tão longa ausência dos nossos “verdes anos”. Tantas experiências, tantas vivências, tudo enfim tão próprio da magia dos anos 60…
Venha de lá então essa foto de família e os votos de um breve reencontro.
Um Grandessíssimo Abraço para ti Antero e desejos de muitas felicidades também para todos os teus do
Quim Espiñal (13 de Novembro)
 

 


publicado por Miradouro de Vila Cova | Quarta-feira, 14 Novembro , 2007, 00:20
DE TARDE
 
Naquele piquenique de burguesas
Houve uma coisa simplesmente bela
E que, sem ter história nem grandezas,
Em todo o caso dava uma aguarela
 
Foi quando tu, descendo do burrico,
Foste colher, sem imposturas tolas,
A um granzoal azul de grão-de-bico
Um ramalhete rubro de papoilas
 
Pouco depois, em cima duns penhascos,
Nós acampámos inda o sol se via;
E houve talhadas de melão, damascos,
E pão-de-ló molhado em malvasia.
 
Mas, todo púrpuro, a sair da renda
Dos teus seios como duas rolas,
                                                    Era o supremo encanto da merenda
                                                    O ramalhete rubro das papoilas
 
                                                     In “O Livro de Cesário Verde”
 
 
 
Há recordações que guardo no meu “cofre das memórias” despoletadas, às vezes, por coisas tão simples como a leitura de um poema.
Não eram propriamente “piqueniques de burguesas” aqueles que eu, na adolescência e juventude, fazia com os meus amigos nas férias passadas em Vila Cova. Mas também havia pão de ló e jeropiga e broa e queijo não só nos nossos passeios no barco do Zé Alves pelas belas margens do rio (ainda não poluído) mas também, depois do banho diário obrigatório, ao pé do “engenho” que nos servia de toldo improvisado. Que belas uvas de mesa as que o Vasco Ramos nos levava a saborear, duma propriedade que ele tinha para os lados do “Pote”, que eu não resisti a pintar numa tela.
Também havia ramalhetes de rubras papoilas e de douradas mimosas com que nós, as raparigas, nos enfeitávamos. Não posso dizer que tenha tido um”grupo”, porque esta palavra contém em si a conotação de “fechado” e o meu “grupo” era aberto a quem quer que nele se quisesse integrar: os novos e os menos novos.
A Iracema, a Hortense Gouveia, a Nelinha Cruz, o Vasco Ramos, o Rui, o António Fernandes, a Lili, o Zé Alves, o David, o Saúl, as minhas primas Lilia e Ana Maria, faziam parte dele e todos aqueles que se encontravam no “cabo do muro” a apanhar ar fresco e se contagiavam com a alegria sã da mocidade.
Com alguns desses menos novos trocávamos saberes.
Foi com eles que, na garagem do Sr. Teixeira, aprendemos a reviver os esquecidos “bailes de roda” – “ora ponha aqui o seu pézinho”, “esta moda de coçar a pulga”, e tantas outros.
Com o aproximar do fim do dia a vila mergulhava no silêncio. Era a hora de recolhimento anunciado pelo toque das Ave-Marias.
Inebriava-me então com o cheiro de lenha queimada das lareiras a aprontarem a ceia; com o chiar da Roda Grande e das carroças puxadas pelos pachorrentos bois; com o tilintar dos chocalhos dos rebanhos; com o marulhar da água do “caneiro” embalando-me nos meus sonhos.
Recordei aqui alguns nomes; impossível recordá-los todos.
Ficaram de propósito para o fim o Professor Aurélio Cruz e a Talinha (a minha querida e saudosa madrinha) sempre prontos a acompanhar-nos nas nossas folias.
Gostaria, numa próxima vez (se me for permitido) de destacar o outro “cofre” que guardo no coração – “o cofre dos afectos”. Dele sairão a Talinha e o Prof. Aurélio.
 
 
Gravura: óleo s/ tela de Nazaré Pereira
“Rubras Papoilas” (61X38)

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