publicado por Miradouro de Vila Cova | Sexta-feira, 19 Outubro , 2007, 23:33
Deu entrada ontem, de manhã, nos Hospitais da Universidade de Coimbra, o Sr. Rui Lourenço, de 23 anos de idade, filho do Sr. António Jesus Cruz Lourenço e Srª Dª Maria do Rosário Jesus Martins, a residirem em Vila Cova. O Rui Lourenço, electricista no Continente em Coimbra, foi internado na unidade de oftalmologia dos HUC, vítima de queimadura nos olhos, quando manuseava um quadro eléctrico.
De acordo com informações que recolhemos, o acidentado está a ser submetido a exames médicos, tendo, contudo, já experimentado melhoras.


publicado por Miradouro de Vila Cova | Sexta-feira, 19 Outubro , 2007, 00:01

 

 

O "Tó Badalo", por

Henrique Gabriel

Foto de Ilda Teresa de Castro

 .
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Sempre me interroguei se, para o Tó "Badalo", o tempo teria a mesma dimensão que para os restantes mortais.
Para ele, o mês de Agosto talvez fosse o "dia", seguido de uma longa noite de 11 meses. De muitas agruras e trabalhos eram feitas aquelas esperas, pois que nem na necessidade somos todos iguais e na base da pirâmide outras pirâmides se formam e as hierarquias também existem.
O seu papel social há muito tinha sido decretado e aceite sem hipótese de redenção.
A ele tocava-lhe sempre o nada e o muito pouco. De boina na cabeça, tombada para o lado, tronco vergado ao peso da saca vazia e do casaco carregado de marcas de muitos tempos, calças presas com cordão de sisal a caírem pelas pernas, que cinto era coisa de outros luxos, botas que há muito tinham perdido os atacadores, era ao Tó que cabia o ingrato papel de figura principal nas mais bizarras animações dos invernos de taberna.
No meio dessas bizarrias medievalescas, acabava sempre por se instalar algum mal-estar momentâneo no íntimo dos convivas e lá era o Tó agraciado com mais um tinto e uma bucha para que o mau momento fosse esquecido, as conciências acalmadas e a vida continuasse com algum decoro dentro dos princípios da caridade cristã.
Adereço principal e imagem de marca do "nosso" Tó, o cigarro ao canto da boca.
Era aquele cigarro que marcava a diferença, era aquele cigarro que lhe dava "aquela" personalidade. O Tó "Badalo" e o seu cigarro eram uma dupla indissociável e isso era reconhecido e famoso dentro e fora dos limites da aldeia.
Era até uma memória nunca esquecida dos que tinham partido para longe, e se por algum acaso acontecesse que tal não fosse recordado, chegasse Agosto e o "ir até à terra", que o Tó era conhecedor de artes mágicas que faziam recordar o facto até ao mais amnésico.
O Tó não sabia ler nem escrever, o Tó não sabia o nome completo, o Tó não sabia que idade tinha, o Tó não sabia nada de coisa nenhuma....Não! Uma coisa o Tó sabia! Talvez o soubesse pelo fim da chuva, pela côr dos campos pelo voar dos pássaros ou por ir perguntando, mas o Tó sabia sempre com precisão quando Agosto se aproximava.
À medida que os dias de Julho iam passando, mudava-se o semblante do Tó. Tornavam-se frequentes as suas paragens no Cabo do Muro, que este muro tem um "Cabo", um "Muro da Meda" e um "Muro".  O "Cabo do Muro" é lálém no Barranco, fora da aldeia. O "Muro da Meda"  a meio do muro, frente à casa do Melro. Ir até ao "Muro" é mesmo na Curva, onde o muro dá lugar às escadas da Fraga, junto ao ex-Café Mira Rio, frente à casa do Sr. Pereira, local de paisagem privilegiada sobre o Alva e ponto de encontro em dias de soalheiro.
E era vê-lo nos fins de tarde de cigarro no canto da boca, sempre de cigarro no canto da boca, a olhar os pores de sol.
Muitos pensarão que era o deslumbre da paisagem e as cores de fogo no horizonte ou o som do marulhar das águas a descerem o caneiro que ali o levavam, mas talvez que fosse confirmar que pelo menos o  sol era de confiança e não lhe pregava partidas, coisa a que estava demasiado habituado, e se punha como sempre, marcando menos um dia na chegada de Agosto.
Com os dias finais de Julho ressurgia o outro Tó em toda a sua plenitude, era vê-lo numa roda-viva, meio de comunicação frenético informando-se e informando sem parança. E disso sabia ele, quem ia chegar no dia 1, e no dia 2, e no dia 3, quem vinha só a quinze, quem ficava Setembro adentro e quem partia com o seu Agosto. E dia a dia a informação ia ficando mais detalhada, quem já vem a caminho, a que horas saiu de Lisboa e a que horas vai chegar.
O Muro transformava-se em local de vigília constante, não fosse acontecer chegar alguém e ele, desprevenido, não dar conta. Havia que fazer as honras, seguir o protocolo da recepção e tirar os devidos proveitos. E à medida das chegadas, entre meias vénias e levantares de boina, entre ...inhos e ...inhas, Senhores e Donas,  Meninos e Meninas, lá ia recordando que chegar a Vila Cova queria dizer também pagar portagem em forma do cigarrinho para o Tó. E ele sabia bem com o que contava, só um cigarro deste, só outro daquele mas que não lho iam recusar diariamente durante a estadia, e outros com que contava com um maço inteirinho e ainda fechado, com filtro pois então que desses já sentia falta e não era coisa que se arranjasse nos meses pesarosos que haviam de chegar. Esses iam para o outro bolso por questões logísticas que ele bem entendia. Como a vida do Tó mudava em Agosto! Se tem sido chamado a definir o calendário não haveria necesidade de tanto número e de tanto mês, apenas uma folha com letras garrafais: AGOSTO, que o Tó era homem de coisas simples.
Mas. como não há sol que sempre dure..., os sorrisos do Tó iam-se transformando aos poucos em meios sorrisos. As rugas voltavam a adensar-se na preparação para a penitência. De novo só restavam os mesmos de sempre de quem o Tó bem sabia o que podia esperar. De tempos a tempos lá ia até ao Muro, mesmo em dias de águas mil. Pendia-lhe um cigarro esquecido, talvez aceso, talvez apagado, o olhar perdia-se-lhe na densidade dos nevoeiros, por vezes adivinhava.-se-lhe um sorriso tímido e bem disfarçado, não lhe fosse denunciar as esperanças. Era longa a noite de 11 meses e o Tó "Badalo" mantinha em segredo o seu direito a sonhar. De sonhar com o novo "dia", o próximo Agosto!  
De cigarro no canto da boca...


comentários recentes
O meu profundo sentir á minha querida amida Sra D....
os azulejos lhe davam valor e beleza. muito perdeu
Pode publicar. Achamos importante que o faça. Obri...
É uma informação muito importante.Espero que não s...
O texto relaciona.se, de facto, com minha tia e ma...
Sim, de facto Maria Espiñal, minha tia, era escrit...
Minha Mãe sempre me disse que a madrinha dela era ...
Uma foto lindíssima.
Olá :)Estão as duas muito bonitas.Ainda bem que a ...
PARABÉNS à nossa FILARMÓNICA!
Outubro 2007
D
S
T
Q
Q
S
S

1
2
3
4
5
6

7
8
9


27



pesquisar neste blog
 
subscrever feeds