publicado por Miradouro de Vila Cova | Terça-feira, 09 Outubro , 2007, 23:29
Élia de Freitas acompanhou a Banda Filarmónica de S. Paulo da Camacha, como jornalista do “Jornal da Madeira”, no período em que aquele simpático grupo de madeirenses esteve em Vila Cova.
Eis a transcrição da peça escrita pela jornalista e que foi publicada no suplemento “Olhar” daquele jornal.
 
 
Zona das Beiras apresenta algumas semelhanças com a Madeira
 
 
 
Vila Cova do Alva oferece hospitalidade sem medida
 
 
 
O interior do nosso país, ainda, reserva muitos cantinhos, quase que perdidos no mapa. Vila Cova do Alva foi descoberta, recentemente, por um grupo de camachenses que ficaram maravilhados com a hospitalidade e humanismo que aquela vila, do concelho de Arganil, situado a 60 quilómetros de Coimbra, tem para oferecer. Vila Cova é banhada pelo Rio Alva, que nasce na Serra da Estrela e, em tempos, era chamada “a Sintra de Coimbra”. A descoberta dos camachenses resultou de um intercâmbio realizado entre a Banda Paroquial de São Lourenço da Camacha e a Filarmónica Flor do Alva, entre os dias 29 de Agosto e 3 de Setembro. A experiência manter-se-á bem viva na memória dos camachenses que, no próximo ano irão retribuir, com a deslocação daquela filarmónica à Madeira.
 
 
 
A “Olhar” acompanhou a Banda Paroquial de São Lourenço da Camacha até Vila Cova do Alva e pode evidenciar o que o interior do nosso país e a Madeira, afinal, têm de comum. Algumas coisas, certamente. Desde a recepção no aeroporto até a partida, sentimos a hospitalidade.
O grupo de músicos, maioritariamente, jovens foi uma espécie de "lufada de ar fresco" para uma vila ávida de juventude. Vila Cova do Alva tem cerca de 600 eleitores, no entanto, os moradores são pouco mais de 300, na maioria, idosos.
É, por isso, um dos exemplos da desertificação que o interior do continente português está a sofrer, com a “fuga” dos casais jovens para os grandes centros onde existe emprego, com as poucas ou quase nenhumas crianças residentes e o consequente fecho das escolas. Talvez, por esta razão, a chegada destes jovens lhes tenha tocado tanto ao coração aliada ao facto de, aqui, as pessoas ainda serem genuínas e muito humanas. 
As semelhanças entre Vila Cova e a Madeira começam na hospitalidade, simpatia e nas estradas. Após o autocarro abandonar a auto-estrada, e ao seguirmos em direcção ao nosso destino, somos levados a percorrer uma estrada repleta de curvas, que serpenteiam as montanhas cobertas de um verde denso.
De salientar que a padroeira de Vila Cova é a Nossa Senhora da Natividade, que é comemorada a 8 de Setembro. Outra das festas marcantes é a Festa de Santa Cruz (3 de Maio) e a Festa de São João (24 de Junho).
Mas, a maior riqueza de Vila Cova são as pessoas. É impossível ficarmos indiferentes. Depois, temos a natureza verde e os monumentos, um património histórico que carece, no entanto, de ser recuperado mas faltam as verbas.
Tendo em conta que a vida de alguns vilacovenses tem vindo a melhorar, o que lhes permitiu adquirir, por exemplo, um carro faz com que a maior parte das pessoas já não utilize as carreiras públicas de transporte que, diariamente, acorrem de Coimbra. De tal maneira que, aos domingos, não há autocarro, o mais próximo, vindo da capital de distrito pára em Vendas de Galizes, a 15 minutos de táxi. Diariamente está disponivel um táxi que faz os serviços e que trata de contactar outros mais, caso haja necessidade.
Vila Cova de Alva não tem posto de correio. Tem uma Casa do Povo onde foram servidas, diariamente, as refeições à comitiva da Camacha e onde constatamos que, por aquelas bandas, as senhoras têm umas “mãos de fada”.
Uma das iguarias típicas de Vila Cova é o bucho. Trata-se de uma espécie de rolo de carne. Depois de bem tratado o estômago do porco, a pele é enchida com arroz e carne do lombo. Vai ao forno e depois é cortado às fatias, estando pronto a comer acompanhado de salada, verduras ou batatas.
Junto ao Rio Alva, perto da ponte romana que faz a ligação com Vila Pouca da Beira (Oliveira do Hospital) encontra-se uma fábrica que produz bucho para exportação.
Outra das iguarias é o porco no espeto sendo que, em termos das sobremesas é de salientar o arroz doce e a tigelada, uma espécie de pudim de ovos que é de comer e chorar por mais. Contam-se, ainda, os bolos leves, que se assemelham às malassadas madeirenses. No rio abunda o barbo, boga, bordalo e as trutas que fazem um belo petisco no prato.

Património é rico mas exige recuperação

Vila Cova apresenta-nos um conjunto de monumentos dignos de serem apreciados. No entanto, requerem uma urgente intervenção mas faltam as verbas, lamenta o presidente da Junta de Freguesia, Alfredo Lourenço.
Destaque para a Casa Nobre que se estende em direcção à praça, vulgarmente, conhecida por Solar dos Condes da Guarda. É um edifício muito elegante que se harmoniza, de certa forma, com a arquitectura envolvente.
O Solar Abreu Mesquita, situado mesmo ao lado da igreja é uma casa datada do ano de 1828, que ostenta ornatos muito curiosos em madeira. Quanto à igreja matriz tem um carácter predominante tendo em conta o que representa e a sua localização. Para quem vem para Vila Cova vindo de Coja, o primeiro sinal da povoação é dado com a visão do templo construído em 1712.
Mais perto do centro da vila encontra-se a Igreja da Misericórdia, que data da mesma época. O estado de degradação levou à destruição do seu interior permanecendo a frontaria barroca.
Situado um pouco acima, encontra-se o Convento de Santo António. É hoje propriedade privada, à excepção da igreja. Em termos religiosos insere-se na província da Imaculada Conceição, que resultou da divisão da Província de Santo António em duas, em 1706. Embora ainda esteja por confirmar a razão da sua existência, é de considerar a sua construção para albergar frades de idade avançada.
Os proprietários que compraram o convento em hasta pública procuram, na medida das possibilidades, recuperar e preservar aquele monumento. No entanto, as obras necessárias são tantas e faltam verbas. A igreja encontra-se, por isso, a degradar-se. Reza a história que, em tempos, porque os sinos do templo têm bom som tentaram levá-los para Arganil mas os vilacovenses não deixaram.
Na Praça de Vila Cova ergue-se um pelourinho manuelino. A praça herdou-lhe o nome onde se encontra o único mini-mercado da vila e uma pequena loja de roupa.
Há, ainda, a destacar o papel social que a Santa Casa da Misericórdia tem na vila e na comunicação com o exterior, através da criação de um site (miradourovilacova.com) onde se encontra informação actualizada e um blog onde os internautas poderão deixar a sua opinião.
O presidente da Casa da Misericórdia, Nuno Espinal, é o responsável pelo site. É de vê-lo de máquina digital em punho, sempre, à procura da melhor foto para, logo, depois colocá-la no site que, cada vez mais, tem recebido visitas.
Na Santa Casa existe um centro de dia para idosos. Esta instituição presta, ainda, apoio domiciliário porque, tal como acontece um pouco por todo o lado, em Vila Cova, também, existem idosos esquecidos pela família.

Dada a falta de postais promoção continua na simpatia

Em Vila Cova do Alva alguns campos permanecem cultivados com milho. No aglomerado de casas situado no centro da vila e junto à igreja, as ruas são estreitas e calcetadas onde sobressai a pedra de xisto, por entre as reconstruções.
Faltam contudo, algumas infra-estruturas e divulgação, até um simples postal de lembrança. O facto da vila não ter tanto movimento como tinha e um maior acesso às máquinas fotográficas fez com que este suporte de divulgação já não se encontre disponivel.
Alguns desses postais, guardados com estima, foram-nos cedidos pelo senhor Vasco Ferreira. Alguns deles são da autoria do próprio, de onde se destacam as belezas naturais, uma vista geral sobre o convento e sobre o rio.
O senhor Vasco é proprietário de um dos quatro cafés de Vila Cova, o Mira Rio, situado à entrada da vila. O nome faz jus ao espaço. Da grande janela do café avista-se o Rio Alva ao fundo e do lado direito a igreja e o casario envolvente.
Interessado em defender os interessas da vila, o senhor Vasco Ferreira colabora com assiduidade nos dois jornais de Arganil onde expõe as suas ideias e chama a atenção para os problemas locais. Isso mesmo pudemos comprovar entre as centenas de artigos de opinião e crónicas que guarda com apreço nos arquivos do café.
Outras pessoas há de registo em Vila Cova onde, a exemplo do resto do concelho, se contam alguns emigrantes que há alguns anos regressaram da África do Sul. Por esta razão, já estão familiarizados com as pessoas da Madeira pois, naquele país sul africano encontra-se uma das maiores comunidades madeirenses.
No tempo em que, ainda, não haviam aviões, os barcos que levavam os emigrantes do continente para a África do Sul passavam, primeiro, pela Madeira. Por isso, ainda, recordam esses tempos, tanto, que alguns já visitaram, novamente, a ilha.
António Paiva é um dos vilacovenses que esteve emigrado na África do Sul. Hoje, juntamente com a esposa, é dono do Café Flor do Alva situado mesmo em frente à Casa do Povo. A esplanada é propícia ao convívio entre os que, diariamente, ali se reúnem.
Este vilacovense tem muito orgulho na sua terra e tenta preservar as tradições. Uma delas é a concepção da jurupiga, uma bebida alcoólica que o próprio confecciona, feita com sumo de uva. Em termos de textura é parecida ao vinho Madeira, o sabor divide-se entre o vinho e a sangria onde não faltam os pedacinhos de fruta.

Filme “Fátima” foi rodado em Vila Cova do Alva

Um dos orgulhos do Café Flor do Alva é de já ter recebido a equipa de actores, que protagonizou o filme “Fátima”, que retrata a vida dos pastorinhos e das aparições, no qual contracenaram Catarina Furtado, Diogo Infante, entre outros.
Foi em Vila Cova que foi rodado este filme, a igreja que aparece logo no ínicio é a igreja matriz da vila, um facto que é motivo de orgulho para os vilacovenses. Na parede do “Flor do Alva” consta um quadro com assinaturas da respectiva equipa e a família guarda, também, com apreço, um álbum de fotografias.
A simpatia estende-se até ao proprietário do Café Central e da sua esposa, casados há mais de 50 anos bem como da senhora Albertina, uma das figuras marcantes da vila. Tem 85 anos mas um espírito de uma jovem de 20 anos. António Paiva diz que é a mascote do desfile do Carnaval de Vila Cova. Depois de falarmos um pouco com a senhora, percebemos o porquê.
É alegre, expontânea e muito sociável. Anda quase sempre acompanhada pelo cão da filha, um dálmata muito meigo. Passa o tempo a conversar e nos convívios que são promovidos. Por vezes, fica acordada até as três horas da manhã a fazer uns bonitos cestos, com suporte de plástico, bordados a crochet bem como a bordar toalhas de mesa.
Algumas holandesas que se fixaram nas redondezas tomaram-lhe tanto carinho que, quando esta vilacovense faz anos, levam-na a jantar fora e compram-lhe um bolo de anos.
Por tudo isto, e muito mais, porque as palavras são insuficientes para descrever tudo de bom que Vila Cova de Alva tem para oferecer, deixa na despedida, um rasto de saudade à medida que nos afastamos… sempre com a esperança de lá voltarmos onde, certamente, nos espera, no mínimo, um sorriso…
 
                                                                                                 Élia de Freitas
 
 

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