publicado por Miradouro de Vila Cova | Sábado, 17 Fevereiro , 2007, 16:06
Recordo-me bem do Sr. José Carvalho. Homem valente, afirmativo, franco no trato, amigo do seu amigo.
A estrada, Vide Coimbra e Coimbra Vide, viu-o passar milhões de vezes, ele, como cobrador da velha carreira de “partidas e regressos” de “saudades e festejos”. 
Só ao Sábado, já noite avançada, é que vinha a casa, à sua Vila Cova, repousar-se na merecida folga que, em cada Domingo, o esperava. Mas, mesmo com o corpo a pedir tréguas, quantas vezes, já noite avançada, não mergulhava, ele e redes, nas águas lavadas do velho Alva. E quanta a expectativa em que o peixe abundasse. O bom “peixe do rio” no tempo em que o Alva, em peixe, de pródigo se gabava.
Era um homem de trabalho. Mas, como nem só de pão vive o homem, o tempo até ia sobrando para, por exemplo, … uma boas partidas. Tudo tinha o seu tempo, o tempo certo, claro. E, então, sendo Carnaval…
 
No Carnaval, anos 50, 60, tinham fama os bailes no Posto de Socorros.
O “Concerto”, com tocadores esmerados, lá criava o ambiente e era ver o pessoal feliz e saltitante com as marchas, valsas e modinhas da moda. Que noites de folia…
 
Claro, o Sr. Zé Carvalho bem lhes sabia da reinação. Todas as noites, ele e camioneta, ali passavam e o pessoal , como que a "manguitá-lo", em festança e forrobodó. "Ai é…deixem lá que já vos digo".  A partir daí foi só arquitectar o plano. E assim foi. Depois, tudo combinado, motorista e até passageiros em cumplicidade. 
De Coimbra vinha um pó pimenta, adquirido em bazar próprio. E pronto. Depois era só agir. O baile no seu auge…  pausa breve no percurso da carreira, ali mesmo ao chafariz, e o Sr. Zé, numa corrida, abeirava-se de um postigo do salão onde a farra imperava, uma sopradela e… ah! pó de um catrino, cumpre lá a tua missão…minutos depois toda a minha gente aos espirros.
Isto, três ou quatro dias e o episódio a repetir-se. Estava lançado o “mistério dos espirros”.
 
Ainda hoje há quem relate a cena que se seguiu. O Sr. José Carvalho, no Domingo posterior, a ouvir os comentários, a consolar-se de gozo, as interpretações do mistério e ele próprio a adiantar o seu juízo: isso é obra do diabo, acreditem... é mesmo obra do diabo…
 
Ah tempos, ah saudades…
 
 
Texto: Nuno Espinal              Reprodução de um quadro do pintor Kiki Lima
 
 

publicado por Miradouro de Vila Cova | Sábado, 17 Fevereiro , 2007, 15:34

Os Rabaceiros

Para o povo de Vinhó
Carnaval é tradição
Pois não se perca o que resta
Não se enterre o que é são
 
E como já vos dissemos
Carnaval é tradição
Aqui, na falta de esgotos
Apanha-se a merda à mão

O saneamento em Vinhó
Anda como o caracol
Lá para o Ano 3000
Vai por os cornos ao sol

Por isso continuará
A esperar ocasião
Ora a cagar no penico
Ora a despejar no chão

Quando tudo começou
Andou tudo com tesão
Mas com o passar do tempo
Não encontrou solução

Retrete comunitária
Foi a nossa opção
Digam lá oh meus senhores
Vinhó, tem ou não tem razão

O raio do cemitério
Teima em não querer lá os mortos
De tão pequenino ser
Só lá dá para crescer hortos

O problema afinal
Não era cortar carvalhos
Depois de estarem no chão
Mandaram-nos para o c...

Rezem então os cristãos
Que a terra desespera
Mas não se apressem então
Pois há uma lista de espera

Mesmo sem mortos na terra
Um coveiro tem que haver
Como não tem que limpar
Não tem nada que fazer

Não sabemos o que deu
Ao Padre da freguesia
Pois vemo-lo a cheirar
O vinho na sacristia

De certo foi enganado
Pois trocaram-lhe a bebida
Por isso só fez um ih!!!
Pensando não estar benzida

Se mesmo azedo marchou
Sem caretas e sem pio
Para a próxima, é pior
Beberá sem arrepio
 
 
 
Publicado: Hugo Lopes

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