publicado por Miradouro de Vila Cova | Sexta-feira, 09 Fevereiro , 2007, 01:15
Já lá vão uns bons 45 anos. Vila Cova, nesse tempo, em Agosto, era sempre uma festa. A malta estudante, em período de férias, vinda de Lisboa, de Coimbra e do Porto, coloria e animava ruas, pervertia a pacatez da terra e provocava, nas suas irreverências, moralidades instaladas. O tempo ia-o distribuindo pelo rio, pelas tílias, pelo barranco e, por vezes, em improvisadas discotecas, quantas vezes em espaços abertos e públicos, onde dançava ritmos que mais não eram que os da sua época. Era então vê-los, pilhas de discos, onde estrelavam, entre outros, Chubby Checker, Sylvie Vartin, Françoise Hardy, Jonhy Halliday, Les Chats Sauvages e os imprescindíveis Beatles. A grande moda era o twist. As gentes de Vila Cova, ouvidos feitos a sonoridades caseiras, lá iam estranhando a destoante estrangeirice musical. Mas, quanto à música vá que não vá. Gostos são gostos, e não se discutem. Mas aquele jeito de dançar, aquele bamboleio, aquele meneio de ancas, aquele desengonce. E chamavam dançar àquilo? Chamassem-lhe o que quisessem, mas dança? A dar às ancas daquela maneira…”tu” quê?...”tu” “iste”? Aquilo é mais um gajo em cima de uma gaja, dizia um mais afoito. Risos gerais em aquiescência ao dito.
 
Ora, em casa de meus avós era, nessa altura, empregada de servir a Maria, rapariga da terra, de uns 16 a 17 anos. Maria nome fictício porque o verdadeiro, por razões óbvias, omito-o. Era de uma extrema dedicação, delicada, mas muito simplória e ingénua. Um dia, minha mãe quis saber onde paravam os filhos. E foi à Maria que se dirigiu, chegada, então, da vila, onde fora a recados.
"Sei onde estão sim, minha senhora. Estão no Posto de Socorros, lá em baixo, na loja. Está lá a estudantada toda. A tarde inteirinha a dançarem aquela valsa…ai, como é que se chama?…tem nome de homem…ah!...já sei. Roque…a valsa do Roque (Rock)…mas olhe que o povo, aqui em Vila Cova, nem sei porquê, até lhe chama outra coisa…ai como é?...já sei, já sei…o fudiste."
 
Diz, quem assistiu à cena, que minha mãe ficou sem pinga de sangue enquanto a Maria, tranquila e feliz, lá continuou a sua lida.
 
 
Texto:Nuno Espinal
 
 

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O meu profundo sentir á minha querida amida Sra D....
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O texto relaciona.se, de facto, com minha tia e ma...
Sim, de facto Maria Espiñal, minha tia, era escrit...
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Uma foto lindíssima.
Olá :)Estão as duas muito bonitas.Ainda bem que a ...
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