publicado por Miradouro de Vila Cova | Segunda-feira, 29 Janeiro , 2007, 08:16

Há não menos de cinquenta anos, na velha estrada térrea, jogava-se, entre outros, o jogo do pião. Era um dos divertimentos da petizada.

Para um círculo, com cerca 1 metro de diâmetro, riscado na terra, cada jogador lançava, com predicados de talento próprio e de escol forjado na brincadeira, o pião. Diziam as regras que o pião, depois de lançado e já quando em inércia, se dentro do círculo permanecesse, estaria sujeito às bicadas de todos os piões a seguir lançados. E se, por mestria de um opositor, o pião fosse jogado fora do círculo, então bem podia encomendar, à santidade, a alma…caíam-lhe em cima as cacetadas da praxe, que, geralmente, o deixavam em fanicos.

Regras eram regras e com o pião reduzido a estilhaços o dono, então, ficava uma estampa de desconsolo. E agora? Desprovido que ficava de tão importante arma de brincadeira, que fazer? Uma única era, na altura, a solução. Chamava-se “Ti” João Caldeira.

João Caldeira, marceneiro de profissão, era nesta arte afamado. Ainda hoje há quem, no repouso da noite, se resfolgue em camas provindas do seu engenho. Passava horas e horas na sua loja, não longe do Adro, muitas das vezes retirando de uma sua mesa de torno, pé no pedal, os adornos que as madeiras, ainda em bruto, nada faziam prever.

Homem de virtudes e valores, tinha, contudo, uma particularidade que a imitação trocista aproveitava fartamente: uma voz roufenha e aguda. Mas, a troça, essa, bem nas suas costas e longe, porque o “Ti” João Caldeira era homem de respeito e de feitio pouco dado a mangações.

Por respeito que fosse, ou até algum reverencial temor, a petizada, só perante o desejo, já insuportável, de ter de novo, na sua posse, um pião é que ganhava coragem e então lá se escancarava à porta da loja na esperança da dádiva. Mas, dessa pose, queda e expectante, não passava. Bico calado, portanto. Ora, o “Ti” João já lhes conhecia o jogo e lá no íntimo bem lhes gozava a atitude, prolongando-lhes o ar de súplica e infernizando-lhes a dúvida.

Passava o tempo que o “Ti” João entendia como o certo. Tinham já pago o preço justo, claro, pelo ganho que iam obter. Era, então, que João Caldeira pousava as ferramentas, olhava-os de frente e lhes atirava:

 

“O que é que queres rapaz? Estás aí à espera de quê? Ah, já sei, queres um pião…ora, nem me faltava mais nada, já tenho pouco que fazer…”

 

Mas, meia hora passada, e já o catraio, feliz, exibia o seu novo pião.

Texto: Nuno Espinal

 


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