publicado por Miradouro de Vila Cova | Quinta-feira, 29 Novembro , 2007, 12:27

Por Henrique Gabriel

 

 

 

 

Aquela procissão marcava as matinas. Vinham e iam dia-a-dia, todos os dias, com excepção dos Domingos, guardados para os afazeres do espírito e da cura das almas. De Vila Cova, de Anceriz e da Digueifel, por estradas, caminhos e atalhos. Fizesse sol, chuva ou abrindo caminho pelo nevoeiro, às oito e meia da manhã não havia lar que não tivesse ali o seu representante. Mulheres e idosos, que os outros já tinham marcado presença no café, bebido o copito de aguardente, o mata-bicho ritual herdado dos há muito idos tempos da peste mas que ali mantinha inquestionável valor terapêutico e a esta hora já suavam no amanho das terras ou caminhavam pinhais fora na recolha de resina. 
Entre sacas de batatas, caixas e caixotes recheados de mimos vários, galinhas e coelhos, vivos sim senhor, que era garantia de chegarem frescos aos que tinham partido para Lisboa na busca de boas aventuranças. A céu aberto, se estava bom tempo ou coberta com oleado, se as chuvas marcavam presença, lá vinha aquela saca bem fechada, com correia de cabedal e cadeado de ferro, na carroçaria da camioneta do Fernando Simões ou Fernando da Vide, por ser entre Coimbra e Vide que dia-a-dia cumpria a sua missão.
A hora estava há muito marcada, o Fernando não era homem de falhar a tal compromisso e assistir à abertura daquela saca, à hora certa, era ritual obrigatório.
Saca aberta, era aí que o Vasco entrava em acção, qual ilusionista tirando da cartola mil razões de contentamento: Era vê-lo, em cima daquele "mocho", assistente imprescindível para se fazer ouvir acima do seu pouco mais de metro e meio, por aquela multidão de rostos ansiosos por notícias. Pelas boas notícias, que as más chegavam por telegrama e corriam mais velozes que a camioneta do Fernando.
- António dos Santos, Maria da Silva, José Fonseca, Madalenas e Alfredos....e mais Antónios e mais Marias, mais alguns Josés e ainda mais uns quantos, que tocava a quase todos. A cada nome aclamado pelo Vasco a resposta era imediata: Para mim! E entre o cheiro de canelas e coloraus, bacalhaus e cafés, emergiam mãos abertas por cima das cabeças e liam-se as cartas logo ali, que as saudades davam lugar à ansiedade.
"Faço votos para que se encontrem todos de saúde, nós por cá todos bem, graças a Deus."

Todas começavam assim e a leitura desse primeiro parágrafo era panaceia de resultado imediato. Estavam de saúde e isso era o que se queria saber.
Entregue a última missiva preparava-se o cortejo de regresso. Lá iam saindo porta fora, uns mais acalmados, outros nem por isso, que hoje a caminhada tinha sido em vão.
E quase sempre havia alguém que ficava. Ficava, esperando pacientemente que todos saíssem e quando de novo se instalava a calmaria, lá se aproximava do balcão com olhar vazio de esperança: "Ó Vasco, vê bem na saca se não ficou lá nenhuma carta para mim!" E lá se ouvia acompanhado de um abanar de cabeça: "Não há mais nenhuma!". Nada a fazer. Havia que esperar pela nova alvorada, peregrinar de novo. E amanhã, talvez amanhã chegasse a esperada carta de envelope branco debroado a risquinhas azuis e vermelhas, sinal de que vinha por avião de terras muito distantes, dum suposto Portugal muito mais profundo do que as profundas terras de Vila Cova, Digueifel e Anceriz daqueles tempos. Era para lá que tinham marchado os mancebos, obrigados a trocar o peso da enxada, ferramenta de sustento da vida, pelo peso da espingarda, ferramenta de sustento da morte. As razões eram inquestionáveis pois ultrapassavam os limites do cabo do muro.
Mas amanhã ela chegaria e lá estaria bem legível com a caligrafia ciosamente ensinada pela D. Anita: …eu estou bem, graças a Deus.

 


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