publicado por Miradouro de Vila Cova | Sexta-feira, 19 Outubro , 2007, 00:01

 

 

O "Tó Badalo", por

Henrique Gabriel

Foto de Ilda Teresa de Castro

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Sempre me interroguei se, para o Tó "Badalo", o tempo teria a mesma dimensão que para os restantes mortais.
Para ele, o mês de Agosto talvez fosse o "dia", seguido de uma longa noite de 11 meses. De muitas agruras e trabalhos eram feitas aquelas esperas, pois que nem na necessidade somos todos iguais e na base da pirâmide outras pirâmides se formam e as hierarquias também existem.
O seu papel social há muito tinha sido decretado e aceite sem hipótese de redenção.
A ele tocava-lhe sempre o nada e o muito pouco. De boina na cabeça, tombada para o lado, tronco vergado ao peso da saca vazia e do casaco carregado de marcas de muitos tempos, calças presas com cordão de sisal a caírem pelas pernas, que cinto era coisa de outros luxos, botas que há muito tinham perdido os atacadores, era ao Tó que cabia o ingrato papel de figura principal nas mais bizarras animações dos invernos de taberna.
No meio dessas bizarrias medievalescas, acabava sempre por se instalar algum mal-estar momentâneo no íntimo dos convivas e lá era o Tó agraciado com mais um tinto e uma bucha para que o mau momento fosse esquecido, as conciências acalmadas e a vida continuasse com algum decoro dentro dos princípios da caridade cristã.
Adereço principal e imagem de marca do "nosso" Tó, o cigarro ao canto da boca.
Era aquele cigarro que marcava a diferença, era aquele cigarro que lhe dava "aquela" personalidade. O Tó "Badalo" e o seu cigarro eram uma dupla indissociável e isso era reconhecido e famoso dentro e fora dos limites da aldeia.
Era até uma memória nunca esquecida dos que tinham partido para longe, e se por algum acaso acontecesse que tal não fosse recordado, chegasse Agosto e o "ir até à terra", que o Tó era conhecedor de artes mágicas que faziam recordar o facto até ao mais amnésico.
O Tó não sabia ler nem escrever, o Tó não sabia o nome completo, o Tó não sabia que idade tinha, o Tó não sabia nada de coisa nenhuma....Não! Uma coisa o Tó sabia! Talvez o soubesse pelo fim da chuva, pela côr dos campos pelo voar dos pássaros ou por ir perguntando, mas o Tó sabia sempre com precisão quando Agosto se aproximava.
À medida que os dias de Julho iam passando, mudava-se o semblante do Tó. Tornavam-se frequentes as suas paragens no Cabo do Muro, que este muro tem um "Cabo", um "Muro da Meda" e um "Muro".  O "Cabo do Muro" é lálém no Barranco, fora da aldeia. O "Muro da Meda"  a meio do muro, frente à casa do Melro. Ir até ao "Muro" é mesmo na Curva, onde o muro dá lugar às escadas da Fraga, junto ao ex-Café Mira Rio, frente à casa do Sr. Pereira, local de paisagem privilegiada sobre o Alva e ponto de encontro em dias de soalheiro.
E era vê-lo nos fins de tarde de cigarro no canto da boca, sempre de cigarro no canto da boca, a olhar os pores de sol.
Muitos pensarão que era o deslumbre da paisagem e as cores de fogo no horizonte ou o som do marulhar das águas a descerem o caneiro que ali o levavam, mas talvez que fosse confirmar que pelo menos o  sol era de confiança e não lhe pregava partidas, coisa a que estava demasiado habituado, e se punha como sempre, marcando menos um dia na chegada de Agosto.
Com os dias finais de Julho ressurgia o outro Tó em toda a sua plenitude, era vê-lo numa roda-viva, meio de comunicação frenético informando-se e informando sem parança. E disso sabia ele, quem ia chegar no dia 1, e no dia 2, e no dia 3, quem vinha só a quinze, quem ficava Setembro adentro e quem partia com o seu Agosto. E dia a dia a informação ia ficando mais detalhada, quem já vem a caminho, a que horas saiu de Lisboa e a que horas vai chegar.
O Muro transformava-se em local de vigília constante, não fosse acontecer chegar alguém e ele, desprevenido, não dar conta. Havia que fazer as honras, seguir o protocolo da recepção e tirar os devidos proveitos. E à medida das chegadas, entre meias vénias e levantares de boina, entre ...inhos e ...inhas, Senhores e Donas,  Meninos e Meninas, lá ia recordando que chegar a Vila Cova queria dizer também pagar portagem em forma do cigarrinho para o Tó. E ele sabia bem com o que contava, só um cigarro deste, só outro daquele mas que não lho iam recusar diariamente durante a estadia, e outros com que contava com um maço inteirinho e ainda fechado, com filtro pois então que desses já sentia falta e não era coisa que se arranjasse nos meses pesarosos que haviam de chegar. Esses iam para o outro bolso por questões logísticas que ele bem entendia. Como a vida do Tó mudava em Agosto! Se tem sido chamado a definir o calendário não haveria necesidade de tanto número e de tanto mês, apenas uma folha com letras garrafais: AGOSTO, que o Tó era homem de coisas simples.
Mas. como não há sol que sempre dure..., os sorrisos do Tó iam-se transformando aos poucos em meios sorrisos. As rugas voltavam a adensar-se na preparação para a penitência. De novo só restavam os mesmos de sempre de quem o Tó bem sabia o que podia esperar. De tempos a tempos lá ia até ao Muro, mesmo em dias de águas mil. Pendia-lhe um cigarro esquecido, talvez aceso, talvez apagado, o olhar perdia-se-lhe na densidade dos nevoeiros, por vezes adivinhava.-se-lhe um sorriso tímido e bem disfarçado, não lhe fosse denunciar as esperanças. Era longa a noite de 11 meses e o Tó "Badalo" mantinha em segredo o seu direito a sonhar. De sonhar com o novo "dia", o próximo Agosto!  
De cigarro no canto da boca...


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Uma foto lindíssima.
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