publicado por Miradouro de Vila Cova | Sábado, 13 Outubro , 2007, 11:32
Por Henrique Gabriel
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
A Velha “Faema” do “Café do Vasco”
 
 
 
 
Longos eram os dias de Inverno naqueles finais dos anos 60, para quem tinha sido fadado a permanecer em Vila Cova. Alguns tinham partido em busca de melhores aventuranças, Lisboa de preferência, os mais arrojados rumaram para as Àfricas. Outros, pelo sim pelo não, por falta de vontade ou por aceitação, aqui sabemos com o que contamos e partir era coisa de atrevidos, por cá se ficaram que também era preciso quem amanhasse as terras.
Entre sementeiras e colheitas, as chuvas e as intempéries, as cheias do rio e o manto branco das geadas, "que hoje está cá uma camada !",  restava o fumo das chaminés que dava aroma ao nevoeiro.
Havia que matar o tempo e acalmar as necessidades, que de misérias nem se dava conta, era assim e pronto!
Local de encontro, o Café Santa Cruz ( por mais tarde Mira Rio) ou Café do Vasco, desde há cem anos que assim era e continuaria a ser, pois do séc. XIX datava a mercearia. Ainda há pouco a Barbearia tinha sido desfeita, que barba e cabelo não era herança a gosto, havia que modernizar, e eis que chega a máquina do café, uma Faema pois então! Brilhante, resplandecente e orgulhosa do seu cromado, coisa moderna.  Bom, na verdade, essa funcionava só no Verão, pois havia que economizar e a clientela não justificava o gasto de electricidade. Entre copos de vinho, tremoços e amendoins, repasto merecido após a terceira rodada, lá ía saindo o cafezinho de cafeteira do fogão de dois bicos debaixo do lava-louça. 
Mas o "café" tinha clientela certa com hora e mesa marcada, não mais que dois ou três mas fieis, e até pagavam a bica a 3 tostões. Houve que separar clientelas que uma Faema tão bem cromada não fazia boa vizinhança com o copo de tinto. Como a arte aguça o engenho, obras na cave, e a loja da lenha antes albergue de burros,  virou a Cova Funda, taberna de eleição. Local de degustação dos tintos da região e acepipes gastronómicos que iam do tremoço à sardinha albardada passando pelos amendoins e pelos carapaus com molho de escabeche, sala para a suecada e a tulha da salga do porco. E era ver as pipas alinhadas, umas cheias outras vazias, mas todas tratadas com "mecha" e a preceito, Batoques bem arrolhados, não fossem ficar com "vazio" e azedar o vinho.  A um canto, o bidão do petróleo com a sua maquineta de dar á bomba, bem por demais necessário, que electricidade era coisa para poucos e havia que alimentar as candeias. Por debaixo do lava-louça de mármore escuro, o garrafão da aguardente que naquelas manhãs geladas havia que "matar o bicho".
E era ali, que naquelas meias tardes, meias noites, ou talvez fins de dia que se iniciavam nas madrugadas, que tudo acontecia. Era gente de pouca cama.
Saca de serapilheira ao ombro, ou a cobrir as costas e a cabeça. Era instrumento de muitas funções dependendo do tempo e da tarefa a cumprir. Servia de almofada ao ombro quando carregava a enxada ou molhos de lenha, de capote quando chovia e sempre dava para carregar umas pinhas para a lareira ou trazer alguns "mimos" da horta.
Era vê-los chegar.
-Ó Vasco dá aí um copo. Isto é que está um tempo. Já não é hoje que vou sachar...ó Vasco, olha que eu não sou "careca".*
-Tinha prometido pró Pinheiral, mas assim não dá e amanhã, se não chover, já tenho prometido para o Sr.Teixeira...tu é que lá podias ir desenrascar que eu na posso estar em dois lados....
-Na posso que esta semana ando por conta do Convento....
E chegava o Fernando "Preguiça" e o irmão Manel "Parrana", mais o Augusto "Chamiço" e o Tó "Badalo" e o "Mete-Mete" mais o Luís "Corneta" e o Benjamim "Policia" e ainda o Luís “Manjerico”e o "Giribita", montado na sua égua desde a Digueifel, e o Augusto Lourenço, o António "Rasgado", o Porfírio, o Ti Zé Salazar, o António "Cantoneiro", o Ti Zé "da Laura", o João Vicente com os seus resineiros, vindos também de Anceriz, Digueifel e Vinhó, mais o Sapateiro de Avô, à procura de clientela e armado de lápis e cartão para tirar os moldes ali mesmo, e o Barbeiro Tavares de Vinhó com loja aberta do outro lado da estrada. E tantos, tantos outros....
E entre o "isto está cada vez pior" e brincadeiras de ocasião, lá se ía ouvindo:
- ò Vasco enche aí que agora pago eu....
-È pá, isto é que tá um tempo... e eu que tinha prometido....
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Ao aproximar da hora da ceia, novas personagens entravam em cena: Elas.
Aí, assentavam os vapores e  tudo voltava a ser como realmente era.
Elas, que durante o dia se tinham mantido escondidas nos afazeres da lida da casa, faziam agora as suas aparições.
Uma de cada vez, com intervalos mais ao menos regulares, assomavam à porta da Cova Funda, e era ver a algazarra, os risos e as gargalhadas resultantes dos prazeres de Baco, a transformarem-se em profundos e comprometidos silêncios. E lá havia um que se levantava, tentando dar a entender que acabara de chegar, mas o torpor das pernas logo o desmentia.
-Ráis partam, na devia ter bebido este último....
E lá saía, bico calado, que ela "desta vez" até tem razão, enquanto ia ouvindo nas suas costa, à laia de ladainha:
-É sempre a mesma coisa, na tens vergonha nenhuma, olha lá  a tua figura...na vez que as companhias dão cabo de ti...é sempre a mesma coisa....
E a quase todos cabia tal sorte, lá iam saindo à frente delas, desaparecendo nas ruas iluminadas por lâmpadas de 20 velas em casquilhos de porcelana que nunca percebi se serviam para iluminar ou se apenas tinham por missão dar forma às sombras.
 
* Expressão usada quando os copos íam mal cheios.

 

 

 


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